No Recife, Isabel Cristina, de 22 anos, foi assassinada dentro do seu apartamento pelo ex-companheiro que queria reatar o namoro. Após o crime, ele se matou. Em Goiana, na Zona da Mata, Andreza dos Anjos, de 27 anos, foi morta a facadas pelo marido ciumento após um relacionamento de 12 anos. Esses dois feminicídios ocorreram com menos de 24 horas de diferença, em março deste ano, Mês da Mulher.
O aumento de casos como esses reflete um problema social persistente: o ódio contra as mulheres. Em Pernambuco, o número de feminicídios cresceu 15% em 2025, segundo levantamento da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da Secretaria de Defesa Social. Foram 88 mulheres mortas em crimes relacionados à sua condição de gênero, o maior número de vítimas dos últimos oito anos. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, 18 mulheres foram vítimas de feminicídio, número igual ao do mesmo período de 2025.
Dados da SDS indicam uma média diária de 137 registros de violência doméstica nos dois primeiros meses de 2026. A socióloga Liana Lewis, professora do departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que o feminicídio é resultado do comportamento de homens que não aceitam que as mulheres questionem seu lugar na sociedade. Ela explica: “O que tem levado ao aumento do feminicídio é o que a gente tem chamado de ‘ressentimento’. A gente observa um reposicionamento da mulher na sociedade. […] Esse ódio, essa tentativa de aniquilar a mulher, é uma resposta a um movimento positivo de reposicionamento. É o homem percebendo que a mulher não aceita mais esse lugar de submissão”.
A socióloga também diferencia misoginia de machismo, afirmando que a primeira é uma forma mais letal e perigosa de desprezo pelas mulheres. “O machismo vai ser a forma como a sociedade se estrutura de maneira a hierarquizar, a colocar o homem como superior a mulher […] A misoginia é o ódio à mulher, é um aprofundamento do machismo, é o desprezo pela mulher. A misoginia é muito mais violenta”, disse.
Na terça-feira (24), o Senado aprovou um projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. O projeto, que altera a Lei do Racismo, segue para análise da Câmara dos Deputados. O combate à misoginia e ao feminicídio exige um esforço coletivo, envolvendo a sociedade e o governo. Liana Lewis sugere que a educação dos homens deve começar desde cedo, enfatizando a importância do trabalho nas escolas.
Nem todo caso de violência doméstica resulta em feminicídio. Muitas vítimas utilizam medidas protetivas para se afastar de agressores. A delegada Larissa Souza, adjunta da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, destaca que a visibilidade dos casos de feminicídio tem incentivado mulheres a denunciarem descumprimentos de medidas protetivas. “A gente já notou, diante do que vem sendo veiculado em relação aos feminicídios, uma preocupação maior para registro de descumprimentos de medida protetiva”, afirmou.
Em 2025, foram feitos 16.657 pedidos de medidas protetivas em Pernambuco, e nos dois primeiros meses de 2026, 4.051. O número de solicitações não é igual ao das medidas concedidas, pois cada caso é avaliado pela Justiça. As medidas protetivas podem incluir afastamento do agressor e proibição de contato.
As mulheres em situação de vulnerabilidade também podem optar por abrigos. Pernambuco conta com quatro casas-abrigo que oferecem alimentação, terapia e orientação jurídica. A neurocientista Diana Lemos explica que a experiência da violência doméstica pode provocar mudanças neurológicas nas vítimas, afetando seus comportamentos e relações sociais.


