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Leitura: As conversas de Kissinger revelam a lógica do poder global
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As conversas de Kissinger revelam a lógica do poder global

Amanda Rocha
Última atualização: 28 de março de 2026 21:10
Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

No dia 16 de setembro de 1973, o secretário de Estado Henry Kissinger conversou com o presidente Richard Nixon na Casa Branca. A ligação ocorreu cinco dias após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende no Chile.

Kissinger mencionou que a situação chilena estava se consolidando e que a imprensa estava “fazendo alarde” sobre a queda de um governo pró-comunista. Nixon, por sua vez, desdenhou da cobertura, afirmando: “Nossa mão não aparece nisso”. Kissinger corrigiu: “Nós não fizemos… mas ajudamos. Criamos as condições o melhor possível”.

A conversa, que seguiu em tom leve e burocrático, revelou que o foco de ambos não era o que aconteceu no Chile, mas como isso seria interpretado. Nixon considerou o governo de Allende não apenas “pró-comunista”, mas também “antiamericano”. Décadas depois, a gravação dessa conversa expõe uma lógica que vai além do evento em si.

As ligações frequentes de Kissinger com Nixon e outros líderes, muitas vezes gravadas, foram analisadas junto a memorandos e documentos desclassificados. Essas gravações, produzidas entre 1969 e 1974, oferecem um registro direto da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, revelando decisões orientadas por critérios estratégicos, com pouca consideração por direitos humanos ou processos democráticos.

Após a vitória de Allende em 4 de setembro de 1970, a avaliação em Washington focou mais no significado de sua eleição do que no resultado em si. Kissinger expressou preocupação com a possibilidade de um país se tornar comunista devido à “irresponsabilidade de seu próprio povo”. Ele argumentou que o problema não era apenas o Chile, mas o efeito que isso poderia ter em outros lugares.

Os Estados Unidos passaram a atuar em várias frentes, incluindo pressão econômica e apoio a iniciativas de desestabilização. Em 11 de setembro de 1973, o governo Allende foi derrubado. O Brasil, que já havia passado por um golpe em 1964 com apoio dos EUA, foi mencionado como um modelo. Durante uma conversa em 9 de dezembro de 1971, Nixon e o ditador brasileiro Emílio Garrastazu Médici discutiram a cooperação entre os países para derrubar Allende.

A década de 1970 também viu regimes militares do Cone Sul cooperando em operações de repressão política, conhecidas como Operação Condor. Embora as gravações de Kissinger não detalhem essas operações, elas ajudam a entender o ambiente em que se desenvolveram. Kissinger enfatizou a necessidade de lidar com os governos existentes, sem objeções explícitas.

Além disso, as gravações mostram a preocupação de Kissinger com a apresentação das decisões. Ele frequentemente se comunicava com jornalistas e monitorava a repercussão das ações, afirmando que “a percepção é tão importante quanto a realidade”. Isso revela um padrão em que as decisões são centralizadas e seguem critérios estratégicos claros, com custos humanos considerados secundários.

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