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Desafios dos cuidadores informais no Brasil

Amanda Rocha
Última atualização: 13 de março de 2026 15:50
Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Aos 66 anos, Mabel da Silva Cardoso Aroeira cuida da mãe, de 90, e do marido, de 80, ambos com diagnóstico de Alzheimer. ‘Se eu não estiver bem, quem cuida deles?’, pergunta Mabel. O depoimento foi colhido por um projeto de extensão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que oferece apoio psicológico a familiares de pessoas idosas com demência.

O trabalho invisível dos cuidadores informais, majoritariamente mulheres, é uma realidade crescente nas cidades brasileiras. De acordo com o IBGE, o número de brasileiros responsáveis por idosos aumentou aproximadamente 38% entre 2016 e 2019, passando de 3,7 para 5,1 milhões de profissionais informais, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. Quase todos os cuidadores são familiares, atuando sem vínculo empregatício ou remuneração.

O envelhecimento populacional, antes uma conquista, tornou-se um desafio econômico e social. Muitas mulheres abandonam o mercado de trabalho para cuidar de parentes, enquanto outras recebem pequenas ajudas para exercer essa função. O estudo ‘Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça’, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que as brasileiras respondem por cerca de 80% do tempo total dedicado aos cuidados não remunerados.

Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que a maioria dos cuidadores informais são mulheres, que dedicam muitas horas diárias à tarefa e enfrentam altos níveis de estresse e exaustão física. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) confirma que cuidadores domiciliares têm pior qualidade de vida e menor capacidade laboral do que a média da população ativa, devido à sobrecarga física e emocional.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) alerta que a falta de políticas públicas de suporte compromete a saúde dos cuidadores e aumenta a dependência dos idosos atendidos. O Ipea estima que cerca de 7 milhões de brasileiras em idade produtiva estão fora do mercado de trabalho devido às responsabilidades de cuidado, o que representa quase 10% da população feminina economicamente ativa do país.

Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sugere que, se o Brasil investisse em políticas de cuidado, o PIB poderia crescer até 4% no longo prazo. A omissão pública gera desigualdade e desperdício de crescimento econômico. Cuidar de alguém dependente é uma tarefa difícil, e nas cidades brasileiras, o desafio é ainda maior devido a moradias pequenas, transporte coletivo precário e longas distâncias até unidades de saúde.

A pandemia de covid-19 acentuou a situação, com relatos de aumento do estresse e isolamento entre cuidadores. O relatório ‘Cuida-COVID’, coordenado por Daniel Groisman e Dalia Romero, conclui que o cuidado, especialmente o exercido por mulheres, foi uma das frentes mais sacrificadas e menos reconhecidas durante a crise sanitária.

A economista Ana Amélia Camarano, do Ipea, destaca que ‘o cuidado é o novo desafio estrutural do envelhecimento brasileiro. Sem políticas de apoio, ele se transforma em tragédia doméstica’. O Brasil ainda trata o cuidado como um assunto familiar, sem a devida regulamentação e políticas públicas adequadas.

Nações que envelheceram antes, como Japão e Alemanha, implementaram sistemas de suporte a cuidadores. Especialistas defendem que o planejamento urbano deve incluir o envelhecimento, com moradias adaptadas e redes comunitárias de apoio. O Brasil, com 87% da população vivendo em cidades, precisa decidir entre terceirizar o cuidado ou reconhecê-lo como um pilar da saúde pública.

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