Eliya Cohen, sobrevivente do Hamas, descreveu sua rotina durante o cativeiro em uma entrevista. Ele revelou que quase não dormia, sendo constantemente acordado por gritos e holofotes instalados 50 metros abaixo da terra. Cohen viu o sol apenas uma vez, quando foi transferido de um túnel para outro, disfarçado com um hijab. Ele ficou acorrentado pelos pés e recebia apenas um pedaço de pão pita por dia, perdendo a conta dos espancamentos.
Cohen recordou um momento em que foi ameaçado de morte. ‘Diga suas últimas palavras’, ordenaram, e ele obedeceu, acreditando que seria executado. No entanto, seus captores apenas riram. Ele afirmou que não sabia se as visitas eram para receber comida, insultos, agressões ou a própria morte. ‘Para eles, eu era um nada’, disse.
Para suportar o cativeiro, Eliya ajustou sua mente. Ele encontrou alívio em pequenas coisas, como um pedaço maior de pão ou duas horas de cochilo sem ser acordado. Seu pensamento estava sempre voltado para a família. Ele escrevia cartas mentais para Ziv, sua noiva, que sobreviveu ao ataque em 7 de outubro ao se passar por morta em meio a corpos. ‘Me mande forças. Vou sair daqui’, pedia ele.
Durante seu cativeiro, Eliya não recebeu informações sobre o mundo exterior e ficou surpreso ao descobrir, após sua libertação, que havia um grande movimento pela sua libertação e que muitas pessoas conheciam sua história. A maior alegria ao sair foi saber que Ziv estava viva e nunca desistiu dele.
Sobre a atuação do governo israelense, Cohen afirmou que é difícil opinar. Ele ressaltou a importância de retirar o Hamas de Gaza, mas expressou sua dor pela perda de companheiros que o ajudaram a manter a humanidade durante o cativeiro. Meses após sua libertação, ele ainda sentia culpa pelos que ficaram para trás e se recusou a fazer uma cirurgia para retirar estilhaços de bala em sua perna até que todos fossem resgatados.
Eliya revelou que ainda é assombrado por suas memórias. ‘Tenho gatilhos com as coisas mais banais’, disse, mencionando que ao levar um garfo à boca, lembrava da fome e das provocações dos terroristas. Ele faz acompanhamento psicológico para lidar com seus traumas e considera que sobreviver foi uma vitória.
O título de seu livro, ‘mufawadat’, que significa negociação em árabe, reflete tanto as tratativas que levaram à sua libertação quanto a barganha diária por necessidades básicas. Ele também mencionou a dificuldade de negociar com Deus, pedindo sinais que o guiassem, e com ele mesmo, questionando se deveria lutar pela vida. ‘Que bom que não desisti dela’, concluiu.


