A bolsa paulista, B3, caminha para fechar março com saldo positivo de capital externo, mesmo diante da aversão a riscos globais provocada pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. O Ibovespa acumula uma queda de pouco mais de 1% neste mês, marcando seu primeiro desempenho mensal negativo desde meados do ano passado, após sete meses consecutivos de valorização, período em que o índice teve alta de quase 42%.
Dados da B3 indicam que houve uma entrada líquida de quase R$ 7,9 bilhões no mercado secundário de ações até o dia 26 de março. Em fevereiro, o saldo positivo foi de aproximadamente R$ 15,4 bilhões, enquanto em janeiro foi de R$ 26,3 bilhões. No total de 2025, as compras superaram as vendas em cerca de R$ 25,5 bilhões.
O cenário geopolítico tenso reduziu a rotação de portfólios que beneficiava mercados emergentes como o Brasil. As preocupações com os altos preços de energia afetam as expectativas de inflação e as políticas monetárias globais. Contudo, a posição do Brasil como exportador líquido de petróleo e sua relevância em commodities colocam o país em uma posição vantajosa, especialmente com o preço do barril de petróleo próximo a US$ 120.
““Já vínhamos com uma visão construtiva para o Brasil no início deste ano e ao longo de todo o ano passado”, afirmou Rashmi Gupta, gestora de portfólio multiativos no JPMorgan Private Bank.”
Gupta destacou que a alocação em Brasil foi ampliada, realocando parte de outras posições em mercados emergentes. O Banco Central do Brasil (BCB) já iniciou um ciclo de corte de juros, reduzindo a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, embora tenha defendido cautela para os próximos passos.
““Nossas interações recentes com investidores estrangeiros indicam que o ciclo de afrouxamento monetário continua sendo um importante gatilho específico para o Brasil”, disse Daniel Gewehr, estrategista-chefe do Itaú BBA.”
Gewehr também observou que o início mais lento do ciclo de cortes levantou dúvidas entre investidores. Estrategistas do Goldman Sachs consideram que o Brasil está bem posicionado em relação a outros mercados emergentes, prevendo um corte de 200 pontos-base nos juros ao longo do ano, desde que o conflito no Oriente Médio seja breve.
A Petrobras, estatal brasileira, tem limitado o repasse do aumento dos preços dos combustíveis aos consumidores, o que pode influenciar a inflação no curto prazo. Desde o início da guerra no Oriente Médio, a empresa fez apenas um aumento modesto nos preços do diesel e não alterou os preços da gasolina. A defasagem média nos preços do diesel é de 73% em relação ao mercado internacional, enquanto a gasolina apresenta uma diferença de 66%.
As ações da Petrobras têm se valorizado, com as preferenciais subindo quase 28% em março. Analistas do UBS BB preveem que a estatal ajustará os preços dos combustíveis no segundo trimestre, elevando o preço-alvo das ações de R$ 40 para R$ 60.
Gupta também mencionou que o resultado das eleições presidenciais no Brasil, marcadas para outubro, pode ser um gatilho para uma reprecificação das ações brasileiras. Ela observou que a volatilidade tende a aumentar à medida que a campanha avança, mas o resultado final pode trazer uma nova perspectiva para o mercado.
““Se o cenário para a política econômica ou o resultado eleitoral se desviar de forma relevante para uma disciplina fiscal mais fraca, especialmente em um ambiente global desafiador, revisaríamos nossa visão”, concluiu Gupta.”


