Um estudo publicado nesta terça-feira (31) na revista científica Cell revela que vírus são capazes de ‘escutar’ conversas químicas trocadas por outras espécies de vírus. A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade de Exeter, no Reino Unido.
A descoberta indica que a comunicação viral é mais complexa e imprevisível do que se pensava, permitindo uma melhor compreensão de como infecções se desenvolvem em ambientes com múltiplos vírus.
Os vírus analisados são os fagos, que infectam bactérias e são comuns no solo. Ao invadir uma célula bacteriana, esses vírus devem decidir entre matar a célula imediatamente ou se camuflar no genoma da bactéria, optando por uma forma de dormência chamada lisogenia.
Para tomar essa decisão, alguns fagos utilizam um sistema de comunicação química conhecido como ‘arbítrio’. Eles liberam pequenas moléculas no ambiente, que, quando acumuladas, indicam que muitas células já foram infectadas e que o número de hospedeiros está diminuindo.
O estudo revelou que o sinal não é exclusivo para os vírus da mesma espécie. Outros fagos, mesmo geneticamente distantes, conseguem captar essas mensagens e responder a elas, o que pode levar a decisões erradas. ‘Quando um fago detecta sinais de outra espécie, ele tende a entrar em dormência em vez de matar a célula’, afirmou a ecologista molecular Robyn Manley, autora do estudo.
Esse erro pode ser custoso, pois vírus que escolhem a lisogenia quando deveriam atacar dependem da sobrevivência da bactéria hospedeira. Por outro lado, vírus que atacam quando não há hospedeiros suficientes acabam destruindo cópias que não encontram para onde ir.
Os pesquisadores também identificaram que a espionagem pode ser vantajosa para o vírus que emitiu o sinal. Quando um fago está integrado ao genoma bacteriano, ele pode se beneficiar se outro vírus recém-chegado ‘ouvir’ seus sinais e optar por entrar em dormência, evitando que a célula seja destruída.
A pesquisa sugere que a comunicação viral não é apenas uma forma de cooperação, mas também de manipulação. ‘Agora vemos que alguns vírus conseguem perceber o ambiente, integrar diferentes sinais e ajustar sua estratégia de infecção’, explicou Manley.
Os experimentos foram realizados com fagos e bactérias do gênero Bacillus, mas as implicações podem se estender a outros sistemas biológicos. Embora ainda não haja evidências de que a mesma comunicação química ocorra em vírus que infectam humanos, a pesquisa abre novas possibilidades para entender a dinâmica das doenças.
Os próximos passos da equipe incluem investigar a disseminação dessas interações entre espécies virais em ambientes mais complexos, buscando uma visão mais completa do comportamento dos vírus em comunidade.

