Em Várzea Grande, Mato Grosso, famílias vivem sob a Ponte Júlio Müller há cerca de 30 anos. O local, situado às margens do Rio Cuiabá, abriga moradias improvisadas que expõem a falta de moradia digna e de políticas públicas adequadas para habitação na região.
Atualmente, existem três casas ocupadas, enquanto no passado foram nove. Os moradores dependem principalmente da pesca e da criação de animais, como galinhas, patos e porcos, para sua subsistência. Apesar das condições precárias, as residências têm acesso à energia elétrica e água encanada.
Os moradores costumam se identificar por apelidos ou pelo primeiro nome. “Jacaré” vive sozinho e cuida da horta e dos animais. “Nardo” reside com a família e atua como intermediário nas questões entre vizinhos. Vitória, que utiliza cadeira de rodas, vive com o marido, que participa da pesca.
A presença das famílias na área é reconhecida pela Prefeitura de Várzea Grande, que informou que equipes de assistência social já realizaram visitas ao local. Atualmente, o acompanhamento é feito pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), e a prefeitura não planeja a retirada das famílias.
A ocupação começou em 1994, quando cerca de 30 pessoas que viviam em Cuiabá se mudaram para o lado de Várzea Grande. Em 1997, a prefeitura ofereceu casas para que algumas deixassem a área, mas muitos optaram por permanecer e se instalaram sob a ponte.
O local é considerado uma Área de Preservação Permanente (APP) devido à proximidade com o rio, o que torna a ocupação irregular. Jânio de França Campos, um dos primeiros moradores, ainda frequenta a área, afirmando: “Aqui é nossa vida, do começo ao fim”.
A situação das famílias não é abordada nas políticas habitacionais do município. A prefeitura ainda não concluiu o Diagnóstico Habitacional nem o Plano Municipal de Habitação, essenciais para orientar ações públicas na área. A atual gestão busca recursos para elaborar esses estudos.
Antes da Copa do Mundo de 2014, houve tentativas de remoção das famílias devido às obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), mas os moradores resistiram. O projeto não foi concluído e foi substituído pelo BRT. Mesmo aqueles que não residem mais no local mantêm vínculos, com pescadores frequentando a área nos fins de semana.
A renda da comunidade depende quase exclusivamente da pesca, e a instabilidade na atividade impacta diretamente a subsistência das famílias. Jânio relatou que a renda é afetada por períodos de chuva e restrições ambientais, e muitos pescadores não receberam o seguro-defeso durante a piracema.
Dados do GeoSUAS-MT indicam que pelo menos 35,17 mil famílias vivem em situação de pobreza em Várzea Grande, e cerca de 73 mil no estado enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso à moradia. Emídio de Souza, da Associação Comunitária de Habitação do Estado de Mato Grosso (ACDHAM), destacou que muitas famílias vivem em ocupações informais ou áreas irregulares.
Na terça-feira (10), a prefeitura anunciou um novo programa habitacional para regularizar mais de oito mil imóveis em 25 bairros da região, com expectativa de entrega em até dois anos e meio. As casas sob a ponte, embora reduzidas em número, continuam a ser um ponto de trabalho e sustento para aqueles que mantêm vínculo com a comunidade.

