A busca por bem-estar e sentido se tornou um imperativo na era da hiperconexão. O excesso de informação nas redes sociais, a velocidade do cotidiano moderno e o cansaço coletivo aumentam o interesse por práticas espirituais que prometem paz e uma vida mais leve. Meditação, ioga, terapias energéticas e filosofias milenares tornaram-se comuns.
A espiritualidade, antes restrita a tradições específicas, agora se apresenta de diversas formas, acessível e adaptável. No entanto, há um lado menos visível nessa popularização: quando a espiritualidade deixa de ser apoio e se torna um mecanismo de fuga emocional. O psicólogo John Welwood criou o termo spiritual bypassing, ou desvio espiritual, para descrever o uso de crenças espirituais como forma de evitar lidar com dores e traumas.
Esse processo pode ser sutil e socialmente validado. Frases como ‘elevar a vibração’ ou ‘focar no positivo’ podem servir como atalhos que silenciam emoções legítimas. A dor não é acolhida, mas contornada. Em quadros como burnout, luto ou ansiedade, esse desvio pode ser particularmente prejudicial. Em vez de buscar suporte psicológico, a pessoa recorre a exercícios espirituais como anestesia psicológica, mudando a forma do sofrimento, que muitas vezes se torna mais profundo.
Entre os sinais mais comuns estão a negação da dor, a minimização de sentimentos difíceis e a positividade tóxica. O problema não reside na espiritualidade em si, mas na forma como ela é utilizada. Existe uma diferença entre uma busca interior que integra e uma que aliena. A primeira amplia a consciência sem negar a experiência humana, enquanto a segunda tenta trocar a realidade por uma versão idealizada.
A espiritualidade integrada não elimina o conflito, mas oferece recursos para enfrentá-lo. Já a alienante cria uma falsa sensação de evolução, afastando a pessoa de si mesma. Uma prática espiritual responsável não substitui o enfrentamento psíquico, mas o acompanha, reconhecendo emoções e buscando ajuda psicológica quando necessário.
O maior equívoco do nosso tempo é acreditar que despertar é deixar de sentir. Na verdade, é ter coragem de sentir tudo com presença, responsabilidade e verdade.
Gabriela Picciotto é doutora em psicologia, terapeuta e consultora organizacional. É autora de Voz da Alma – Um guia prático para se reconectar com sua essência, obra publicada pela Literare Books International.


