Fios de cabelo que seriam descartados após a produção de perucas para pacientes com câncer estão sendo utilizados para conter óleo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A iniciativa começou a ser aplicada na Enseada de Bom Jesus, na Ilha do Fundão, e é considerada inédita.
O projeto surgiu a partir da dúvida sobre o que fazer com os cabelos não utilizados na confecção de perucas. Mariana Robrahn, fundadora da ONG Fiotrar e criadora do projeto Cabelegria, encontrou uma solução já testada nos Estados Unidos. Ela explicou: “Tentando encontrar uma solução para os cabelos que eram descartados, descobri uma organização nos Estados Unidos que produzia mantas e barreiras com cabelo humano para retirar petróleo do oceano.”
A ideia foi colocada em prática em 2021, quando Mariana fundou a Fiotrar para desenvolver a tecnologia no Brasil. Os fios passam por um processo de transformação até se tornarem mantas capazes de absorver óleo da água.
Segundo a ONG, um grama de cabelo pode absorver, em média, até cinco gramas de óleo. As mantas são colocadas em estruturas cilíndricas, conhecidas como “salsichas”, que funcionam como filtros flutuantes. O cabelo retém o óleo enquanto a água passa, ajudando a reduzir a contaminação.
Na Enseada de Bom Jesus, a manta está sendo instalada junto a uma barreira de contenção de lixo já existente. Ao todo, são cerca de 350 metros de extensão, com aproximadamente 250 quilos de cabelo utilizados. Mariana destacou: “Foi através da parceria com a Orla Sem Lixo que conseguimos acoplar a nossa barreira de cabelo para proteger os manguezais. É a primeira barreira desse tipo no Brasil com mais de 300 metros.”
O projeto busca também envolver as comunidades de pesca da Ilha do Fundão, criando um modelo que permita manter e ampliar a iniciativa. Suzana Vinzon, coordenadora do projeto Orla Sem Lixo – UFRJ, explicou: “É um projeto que visa uma solução com a inclusão das comunidades de pesca da Ilha do Fundão, ter um modelo de negócio para perpetuar a solução e multiplicar.”
A região sofre com o acúmulo de resíduos e o despejo de óleo de embarcações, ameaçando diretamente o manguezal, que é fundamental para a reprodução de diversas espécies marinhas e impacta a renda de pescadores e catadores de caranguejo.
Após a instalação, a manta será monitorada a cada 15 dias, com substituição do material a cada quatro meses. A expectativa é que a tecnologia seja levada para outros pontos críticos do litoral brasileiro, com a produção das mantas seguindo em ritmo acelerado.


