O funk paulista tem documentado a história dos estelionatários digitais, conhecidos como Raul. O nome, comum no Brasil, se tornou sinônimo de estelionato, com MCs relatando o crescimento desse tipo de crime nos últimos anos.
A origem do codinome Raul está ligada a um aparelho que clonava cartões durante transações em caixas eletrônicos, chamado de “chupa-cabra” ou “Raul”. Para se diferenciarem, os golpistas escolheram um nome usado por 64,6 mil brasileiros, segundo o IBGE. O estelionato é crime previsto no código penal, com pena de um a cinco anos de reclusão e multa.
A partir dos anos 2010, o funk começou a abordar a vida dos Rauls, não apenas os golpes, mas também como os criminosos usufruem do dinheiro roubado. MCs como Kelvinho e Kapela se destacaram com músicas sobre estelionato. A canção “O Corre”, de Kelvinho, tem 22 milhões de visualizações e menciona:
“”Os caras que vivem de golpe / Nocaute no Santa [banco Santander] / É nós que é o corre / E os bicos se espanta””
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Três MCs e um produtor musical, que pediram para não serem identificados, afirmaram que falar sobre a vida dos golpistas se tornou um nicho dentro do funk. O aumento dos crimes cibernéticos impulsionou a popularidade desse tema nas músicas. Um MC comentou:
“”A molecada mais nova quer surfar na onda. Hoje o negócio é falar dos Rauls, não só pelo crime, mas pela vida que eles levam””
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Com o funk dominando as plataformas de streaming, o tema Raul chegou aos charts. A canção “300 no 7”, lançada em 2024 por MC GP, MC J Vila e MC Luuky, retrata a vida de um Raul após aplicar um golpe. A introdução diz:
“”Arranquei 300 no 7 / Nós que faz e acontece / Busca as duas no flat / E joga na Macan””
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Yuri De Lucca Dinalli, diretor de A&R da GR6, afirmou que os principais artistas de funk já abordaram o tema Raul em suas músicas. Ele destacou que o assunto está sendo explorado à exaustão.
Após o sucesso musical, o tema dos Rauls será adaptado para uma série na Netflix, chamada “Rauls”, criada por Kaique Alves, Konrad Dantas e Felipe Braga. A sinopse não foi divulgada, mas a trama deverá abordar o mundo dos estelionatários e a música, com parte do elenco composta por MCs.
Falar de Raul envolve não apenas o crime, mas toda a cultura associada a ele, incluindo vestimentas e hábitos de consumo. Os homens costumam usar roupas em cores neutras e acessórios discretos, enquanto as mulheres, chamadas de Raulas, adotam macacões ou jaquetas com calças de marca.
O funk tem documentado a dinâmica do crime em São Paulo desde seu surgimento. Nos anos 2000, as letras abordavam assaltos e tráfico de drogas. A socióloga Isabela Vianna Pinho destacou que o funk da Baixada Santista também documenta a realidade do tráfico. Entre 2010 e 2012, quatro cantores foram assassinados na região, o que levou a uma mudança nas temáticas abordadas.
A doutoranda Ana Clara Klink relaciona o crescimento dos crimes de estelionato virtual a fatores como o surgimento do PIX e a pandemia. O público-alvo é predominantemente jovem, entre 18 e 29 anos, com conhecimento em tecnologia. Os Rauls aplicam golpes de diversas formas, como clonagem de cartões e invasão de contas bancárias.
Gustavo Prieto, professor da UNIFESP, explicou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) busca entender o mundo dos Rauls, que atuam como micro-empreendedores, muitas vezes de forma autônoma. Ele ressaltou que o dinheiro obtido com os golpes é frequentemente gasto na própria periferia, desafiando a visão de escassez.
A imagem do Raul como um ladrão de banco 2.0 é forte, refletindo uma escolha de cometer crimes sem violência. O interesse sobre como vivem e gastam seu dinheiro se espalhou pelas periferias, tornando impossível para a arte ignorar os Rauls.

