Israel anunciou no sábado (21) que o Irã possui mísseis capazes de atingir alvos a até 4.000 km de distância, o que permitiria ataques contra grandes cidades da Europa. A declaração foi feita após um ataque contra uma base militar em Diego Garcia, no Oceano Índico, localizada a cerca de 3.800 km do território iraniano.
Diego Garcia é uma ilha remota controlada pelo Reino Unido, que abriga uma base militar compartilhada com os Estados Unidos. O governo britânico autorizou o uso do local por forças norte-americanas para atacar lançadores de mísseis iranianos que miram navios no Estreito de Ormuz. Segundo o jornal The Wall Street Journal, o Irã lançou dois mísseis contra a base de Diego Garcia na manhã de sexta-feira (20). Um dos projéteis falhou no trajeto, enquanto o outro foi interceptado por um navio de guerra dos Estados Unidos.
A agência semiestatal Mehr confirmou que o Irã lançou um ataque “que demonstra que o alcance dos mísseis iranianos vai além do que o inimigo imaginava”. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o Reino Unido colocava a vida de britânicos em risco ao permitir o uso de bases para ataques.
Até então, era de conhecimento público que o Irã tinha mísseis com alcance de pelo menos 2.000 km. Poucos dias antes do início da guerra, Araghchi disse em entrevista que esse era o limite imposto pelo governo iraniano. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), análises indicam que os mísseis iranianos com alcance de 2.000 km poderiam atingir alvos em países europeus como Bulgária, Romênia, Ucrânia e Grécia. Um míssil com alcance de 4.000 km mudaria esse cenário, permitindo que o Irã mirasse grandes centros como Berlim, Londres, Roma e Paris.
O professor Maurício Santoro, doutor em Ciência Política, afirma que ter esse tipo de armamento não significa que um ataque contra a Europa esteja nos planos do Irã. Segundo ele, não há indícios de que o Irã pretenda atacar território europeu no contexto da guerra contra Israel e os Estados Unidos. Contudo, a possibilidade de Teerã possuir um míssil com alcance maior acende um alerta na Europa.
Em 2015, o Irã revelou ter um míssil conhecido como Soumar, que poderia atingir alvos a até 3.000 km de distância. No entanto, o CSIS questiona esse número, avaliando que o alcance real provavelmente ficaria abaixo de 2.500 km. O país também possui mísseis balísticos de curto e médio alcance, com modelos que variam entre 300 km e 2.000 km. Nos últimos anos, analistas apontavam que o Irã poderia estar desenvolvendo tecnologias para construir mísseis com alcance de até 5.000 km, mas nunca houve confirmação oficial.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que ainda não havia confirmação de que o Irã teria um míssil capaz de atingir alvos a 4.000 km, mas que a possibilidade existe. Ele comentou que, se for verdade, significa que o Irã já teria essa capacidade. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, afirmou que o secretário-geral da Otan se recusou a apoiar a “desinformação” de Israel sobre os mísseis iranianos.
O ataque contra a base em Diego Garcia gerou alertas na Europa, especialmente no Reino Unido. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que não há indicação de que o Irã pretenda atacar o país, ressaltando que as avaliações de segurança são realizadas constantemente. Starmer enfatizou que a prioridade do governo é proteger interesses britânicos e reduzir a tensão na região.
O professor Maurício Santoro explicou que, no momento, não há sentido político para um ataque do Irã contra a Europa. Ele acredita que o continente teria boas chances de se defender em caso de uma ofensiva, especialmente se fossem ataques com poucos mísseis. Santoro destacou que a estratégia iraniana tem sido atacar países vizinhos e alvos civis para pressionar o comércio internacional e impactar o preço do petróleo.

