No Sertão pernambucano, na zona rural de Petrolina, um médico identificou um desafio que impedia muitos pacientes de receberem o tratamento adequado: o analfabetismo. Lucas Cardim percebeu que, apesar de fornecer orientações escritas, muitos pacientes não conseguiam compreender as receitas médicas devido à sua dificuldade de leitura.
Essa realidade afeta mais de 11 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Lucas constatou que, mesmo com acesso a medicamentos e consultas, a falta de compreensão das orientações escritas resultava em pacientes que continuavam a adoecer. Ele relatou: ‘Quando cheguei ao consultório, encontrei um abismo. Muitas vezes, o paciente tinha acesso ao medicamento e à consulta, mas não conseguia se tratar porque não conseguia entender.’
Para resolver o problema, Lucas começou a desenhar à mão nas receitas, utilizando ícones simples para indicar horários e quantidades de medicação. Por exemplo, ele desenhava uma xícara de café para indicar que o remédio deveria ser tomado pela manhã e uma lua para a noite. No entanto, esse método tomava tempo e, em algumas situações, constrangia os pacientes.
Para otimizar o processo, Lucas pediu ajuda ao amigo Davi, um engenheiro de software que trabalha no Google. Juntos, eles desenvolveram a plataforma Cuidado para Todos, que oferece uma lista de medicamentos com ícones pré-definidos para facilitar a compreensão dos pacientes. O médico pode selecionar os remédios, imprimir a receita e entregá-la ao paciente.
A plataforma já está em uso em mais de 10 municípios e três distritos indígenas. Um exemplo de sucesso é o caso de Maria das Dores, uma idosa diabética que, após receber orientações visuais, conseguiu controlar sua glicemia e melhorar sua saúde. Lucas enfatiza: ‘Não é só entregar a receita. A gente ensinou ela a utilizar a caneta de insulina… Pouco a pouco, ela foi fazendo equilíbrio glicêmico e hoje em dia está super bem.’
O Sistema Único de Saúde (SUS) está presente em mais de 5 mil cidades brasileiras e, segundo Lucas e Davi, é essencial que as particularidades de cada região sejam consideradas para garantir o acesso à saúde. Eles buscam implementar a plataforma gratuitamente nas unidades básicas de saúde e desejam que a tecnologia seja incorporada permanentemente ao Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC).
O Ministério da Saúde também está trabalhando para apoiar profissionais do SUS no atendimento a pessoas com baixo nível de letramento, disponibilizando ferramentas e pictogramas que seguem as padronizações estabelecidas pelos órgãos reguladores.

