No Dia Internacional da Mulher, uma moradora de Sorocaba (SP), de 49 anos, relembra as agressões que sofreu e fala sobre seu processo de auto perdão. Apesar das flores e palavras de conforto que muitas recebem, os 27 feminicídios registrados em janeiro no estado de São Paulo evidenciam que a violência doméstica é uma realidade constante para muitas mulheres.
A mulher, que prefere não se identificar, carrega marcas que vão além das cicatrizes físicas. Ela relata que precisou aprender a amar um filho que nasceu de uma situação de abuso, além de conviver com memórias de anos de agressões. “Vim de uma família muito carente, muito pobre, e não tinha muita informação. Meu pai era muito rigoroso, parecia um carrasco. Até meu irmão me agredia o tempo todo. Por isso, eu queria sair cedo de casa para ser feliz”, conta.
Aos 15 anos, o sonho de escapar das agressões tornou-se um pesadelo. Ela passou por três relacionamentos, sendo o primeiro marcado por agressões frequentes, incluindo uma facada na perna. “Vivi um ano com ele e sofri muito. Não chegamos a nos casar; fui morar na casa da mãe dele, vivendo em extrema escassez. Ele acabou me abandonando grávida, após meses de violência doméstica”, relata.
Após ser abandonada, a mulher voltou para casa e foi forçada pelo pai a se casar com outro homem. Nesse relacionamento, engravidou do segundo filho após ser violentada sexualmente. “Eu queria ficar solteira e cuidar do meu filho. Mas fui coagida e me casei logo após o nascimento dele. Sofri muito, pois ele [marido] era irresponsável e não trabalhava”, diz.
No terceiro relacionamento, a mulher sofreu agressões seguidas de uma tentativa de feminicídio durante quatro anos. “Eu engravidei dele com o meu terceiro filho. Durante uma crise de ciúmes, ele chegou a pisar na minha barriga. Ele não me deixava sair de casa para trabalhar e me vigiava constantemente. Eu vivi em cárcere privado”, afirma.
Ela relata que, após o nascimento do terceiro filho, que nasceu doente, o marido se irritava quando ela pedia ajuda de vizinhos e a ameaçava. “Teve um dia em que eu estava dormindo com meus filhos e ele chegou à noite jogando álcool em mim. Eu senti o cheiro forte e acordei. Quando ele ia acender o fósforo, me joguei em cima dele e comecei a lutar. Ele iria me queimar viva”, diz.
Após a morte do terceiro filho, a mulher ficou ainda mais doente psicologicamente. “Mesmo com toda essa pressão, ele assumiu cuidar dos meus filhos, e a casa tinha comida e provisão, algo que nunca tinha tido antes. Por conta disso, demorei muito para sair desse ciclo. Enfrentei depressão e me sentia inútil e burra”, relata.
Ela também convive com a fibromialgia, uma síndrome crônica que causa dor muscular generalizada. “Até hoje (20 anos depois) tomo muitos remédios para controlar a dor. Essa doença não tem cura; tenho que conviver com esse problema, que provavelmente foi desencadeado após anos de violência que sofri”, diz.
A psicóloga Thais Mazzoti, de Sorocaba, explica que a saúde deve ser compreendida de forma multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. “As experiências de sofrimento intenso, traumas e estresse prolongado podem ter influenciado o funcionamento do organismo e contribuído para o surgimento ou agravamento da doença”, afirma.
Após o terceiro casamento, a mulher encontrou um novo parceiro que a trata bem e a apoia em seu tratamento psicológico. “Ele me ajudou a superar muitas coisas, me acompanha no psiquiatra e no psicólogo”, diz. Atualmente, ela faz tratamento contra ansiedade e depressão e está em processo de auto perdão. “Eu não sinto ódio dos meus agressores. Às vezes sinto raiva de mim mesma. Tenho dificuldade, não consigo me perdoar. É algo que estou trabalhando com minha psicóloga”, revela.
Ela finaliza afirmando: “Mesmo assim, posso dizer que superei muita coisa. E quero reforçar que nós, mulheres, não devemos aceitar nenhum tipo de agressão. Sempre busque independência, uma maneira de não depender dos seus companheiros. Nós, mulheres, podemos tudo; somos fortes e inteligentes”.


