No dia 16 de março de 1990, o Brasil vivenciou um momento marcante em sua história. Na véspera, o país havia celebrado a posse de Fernando Affonso Collor de Mello, o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960. Contudo, menos de 24 horas após a posse, o governo anunciou o Plano Collor, um conjunto de medidas econômicas que se tornaria um dos mais radicais experimentos de intervenção estatal em tempos de paz.
O plano consistia no confisco das economias dos brasileiros. Contas correntes, cadernetas de poupança e aplicações financeiras acima de um limite mínimo foram congeladas, com os valores retidos pelo governo por 18 meses. Assim, milhões de pessoas acordaram com suas economias bloqueadas, levando a uma onda de descontentamento.
Para entender o clima daquele momento, é necessário olhar para a década de 1980, que foi devastadora para a economia brasileira. O país enfrentava uma crise fiscal profunda, elevada dívida externa e uma hiperinflação que ultrapassava 80% ao mês. Vários planos econômicos, como Cruzado, Bresser e Verão, tentaram conter a inflação, mas sem sucesso. Quando Collor venceu as eleições de 1989, muitos acreditaram que ele poderia romper o ciclo da crise.
A equipe econômica do novo governo diagnosticou que o excesso de moeda em circulação era o motor da hiperinflação. A solução foi radical: retirar grande parte desse dinheiro da economia de uma só vez, congelando os depósitos bancários da população. Essa medida teve efeitos devastadores, resultando em recessão profunda, falências de empresas e perda de capacidade de compra dos consumidores.
O Plano Collor nasceu cercado de desconfiança. A tentativa de estabilizar a economia, liderada pela então ministra Zélia Cardoso de Mello, conseguiu reduzir temporariamente a inflação, mas não abordou as causas estruturais do problema. Sem reformas fiscais consistentes, a inflação voltou a crescer, e o governo Collor enfrentou um colapso político em 1992, culminando em seu impeachment.
A hiperinflação brasileira só foi derrotada quatro anos depois, com o Plano Real, que seguiu um caminho mais estruturado e gradual, sem confisco e sem devastar as poupanças da população. O episódio Collor serve como uma lição sobre a busca por líderes que prometem soluções rápidas em momentos de crise.
Trinta e seis anos depois, a memória daquele dia ainda ressoa na sociedade brasileira, lembrando que crises econômicas profundas podem levar a decisões extremas. Em 16 de março de 1990, milhões de brasileiros aprenderam que, em certas aventuras políticas, o primeiro a desaparecer não é o problema econômico, mas o dinheiro das pessoas.

