O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, visitou países do Golfo e firmou acordos de cooperação em defesa militar com os Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita. A visita ocorreu em meio à guerra no Oriente Médio e teve duração de dois dias.
Durante a viagem, Zelensky se reuniu com militares ucranianos que estão levando tecnologia de drones para a região. Os acordos refletem a interconexão entre os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
Após quatro anos de bombardeios russos, a Ucrânia desenvolveu tecnologias para neutralizar ataques com drones, que despertam interesse no Golfo. Recentemente, ataques com enxames de drones, como os utilizados pelo Irã, têm sido respondidos com sistemas avançados de defesa aérea.
Os países aliados têm utilizado mísseis de alto custo, como os sistemas Patriot e THAAD, que podem custar milhões de dólares por unidade. Em contrapartida, os drones usados nesses ataques têm custo estimado em cerca de US$ 50 mil.
A disparidade de custos levanta preocupações sobre a sustentabilidade das operações. Os Estados Unidos produzem cerca de 65 mísseis Patriot por mês, mas, apenas nos primeiros dias de confronto, mais de 800 teriam sido utilizados.
A produção de drones de baixo custo, por outro lado, segue em ritmo elevado. A especialista em segurança internacional da Chatham House, Orysia Lutsevych, afirmou que os conflitos estão conectados pelo impacto no preço do petróleo e pela corrida tecnológica militar.
Os Estados Unidos e seus aliados têm priorizado o Oriente Médio, o que afeta diretamente a Ucrânia. Cada míssil utilizado na região deixa de estar disponível para a defesa ucraniana contra ataques russos. Zelensky já alertou que os estoques estão no limite.
A resposta pode vir da própria Ucrânia, que desenvolveu drones interceptadores, conhecidos como “drones-caçadores”, projetados para destruir drones inimigos no ar. Equipados com explosivos, esses drones podem atingir velocidades de até 300 km/h e operar em um raio de aproximadamente 40 quilômetros, custando cerca de US$ 2 mil cada.
Engenheiros envolvidos no projeto destacam a eficiência da tecnologia, que foi inicialmente desenvolvida para neutralizar drones iranianos utilizados pela Rússia. A experiência acumulada transformou o front ucraniano em um laboratório de inovação militar, agora exportada para o Golfo.
Zelensky informou que a Ucrânia já produz cerca de 2 mil desses drones por dia e enviou mais de 200 especialistas para treinar as forças armadas da região. Lutsevych resumiu: “A Ucrânia, com toda a sua capacidade de engenharia, indústria e inovação, pode ser um ativo, e já é. O maior trunfo da Ucrânia hoje são esses engenheiros que sabem operar drones e sistemas antidrones na guerra moderna”.
Esse cenário cria um paradoxo: enquanto a guerra no Oriente Médio reduz a atenção e os recursos destinados à Ucrânia, também abre espaço para que Kiev se torne uma fornecedora estratégica de tecnologia militar. O conflito no Golfo pode representar uma fonte adicional de recursos e influência para Zelensky, além de um caminho para recolocar a guerra contra a Rússia no centro das atenções internacionais.


