Quase 40 anos após o acidente com o césio-137, em Goiânia, a tragédia ainda impacta a vida de quem a viveu. Lourdes das Neves, que perdeu a filha Leide das Neves, de apenas seis anos, descreve a dor que nunca se encerra. ‘Não tem como esquecer’, afirma.
Lourdes relembra momentos de medo e incerteza, como a separação da família e o sofrimento do marido, que também foi contaminado. ‘Ele gritava de dor. Tinha hora que eu precisava esconder as coisas dentro de casa, porque quando a dor era muito forte ele saía desesperado atrás das facas’, recorda.
Lucimar das Neves, que tinha 14 anos na época, também carrega as marcas do acidente. Ele menciona que sua adolescência foi interrompida e que nunca conseguiu retomar a vida plenamente. ‘Do nada, vem uma tristeza. Parece um distúrbio’, descreve.
Ambos os sobreviventes relatam que, apesar da dor, não guardam rancor. Lourdes critica a negligência dos responsáveis pela clínica onde o equipamento foi abandonado, afirmando: ‘Eles sabiam do risco’.
Recentemente, uma série inspirada no acidente trouxe à tona lembranças dolorosas. Lucimar tentou assistir, mas não conseguiu sem se emocionar. ‘Tem coisa ali que bate lá no fundo’, diz.
O acidente ocorreu em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia foi aberto por catadores, que não sabiam do risco. Mais de 200 pessoas foram expostas à radiação, resultando em pelo menos quatro mortes diretas. As consequências físicas e emocionais do desastre ainda afetam as vítimas e suas famílias.
Quase quatro décadas depois, a tragédia do césio-137 permanece como uma ferida aberta na vida de quem sobreviveu. Para Lourdes e Lucimar, a dor e as lembranças continuam a fazer parte do cotidiano.

