Atividades humanas na Amazônia, como desmatamento e abertura de estradas, estão facilitando a transmissão de novos vírus. A floresta abriga uma vasta diversidade de formas de vida, incluindo vírus desconhecidos, que evoluem em equilíbrio com os ecossistemas naturais há milhões de anos.
O virologista José Luiz Proença Modena, professor associado e coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que o avanço das atividades humanas aumenta o risco de contato entre pessoas e agentes patogênicos. Ele lidera estudos na Amazônia, especialmente ao longo da rodovia BR-319, onde investiga tanto vírus conhecidos quanto aqueles ainda não descritos.
Os vírus, que podem infectar uma ampla gama de organismos, são especialmente preocupantes quando infectam aves e mamíferos. “Dentre esses, os vírus que infectam aves e mamíferos, ou aqueles com amplo espectro de hospedeiros, como os arbovírus, representam maior risco para humanos”, afirma Modena.
O fenômeno conhecido como spillover ocorre quando um vírus ultrapassa a barreira entre espécies e infecta humanos. Se houver transmissão sustentada entre pessoas, podem surgir surtos ou epidemias. A degradação ambiental, segundo Modena, rompe barreiras naturais que antes limitavam esse contato.
A rodovia BR-319 é um ponto crítico, pois conecta Porto Velho (RO) a Manaus (AM) e tem sido associada ao avanço de ocupações humanas. “A estrada leva pessoas, animais domésticos e atividades econômicas para áreas remotas, criando novos pontos de contato entre humanos, animais e vírus”, explica o pesquisador.
Comunidades próximas a áreas de floresta preservada podem apresentar um perfil de anticorpos que reflete a exposição a vírus circulantes. Em contraste, regiões mais desmatadas ao longo da BR-319 apresentam um cenário diferente, onde a expansão da pecuária e da agricultura altera o ambiente e pode favorecer a circulação de patógenos.
Os arbovírus, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela, são foco de pesquisa. Além deles, vírus menos conhecidos, como Oropouche e Mayaro, também estão sendo monitorados. Modena destaca que mudanças ambientais podem influenciar a evolução desses vírus, permitindo o surgimento de novas variantes.
Para antecipar riscos, pesquisadores utilizam tecnologias como a metagenômica, que identifica material genético de vírus em amostras ambientais e biológicas. A participação das comunidades locais é essencial nesse processo, permitindo a detecção precoce de possíveis ameaças. “Condições adequadas de renda, educação e saúde são fundamentais para que essas populações atuem como aliadas na conservação ambiental e na prevenção de doenças”, conclui Modena.

