O economista Aod Cunha, colunista do CNN Money, avaliou que o ajuste fiscal no Brasil só será alcançado com cortes efetivos de despesas. Ele fez essa afirmação em entrevista, destacando que, apesar de o cenário fiscal ter perdido protagonismo nas discussões econômicas, continua sendo motivo de preocupação.
Cunha comentou sobre as declarações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, em Washington, que indicam que o governo acredita estar cumprindo as metas fiscais estabelecidas. “Tanto ao final da gestão do ministro Haddad quanto do Durigan agora, há uma fala do governo como se ele estivesse cumprindo com as metas fiscais por eles traçadas dentro do arcabouço fiscal”, afirmou.
No entanto, o economista acredita que a realidade é mais complexa. “A preocupação que o mercado e analistas em relação à sustentação da atual trajetória não parece ser comungada pelo governo. Porque o governo disse que ainda está no limite inferior do arcabouço fiscal”, disse Cunha.
Ele destacou que existem despesas em áreas como saúde e educação que não são consideradas na verificação do superávit primário, o que torna a situação fiscal mais frágil do que o governo reconhece. A valorização do real, segundo Cunha, é um dos motivos pelos quais o tema fiscal parece ter perdido urgência no debate econômico.
A divisa brasileira teve um ganho substancial em relação ao dólar desde 2025, impulsionado por um movimento de carry trade e pelo enfraquecimento global do dólar. “O governo tem uma missão de gerar um esforço primário entre 2% e 3% do PIB, e terá que decidir se fará isso com mais aumento da carga tributária ou com cortes de despesas”, afirmou.
Sobre as eleições de 2026, Cunha se mostrou cético quanto à abordagem dos candidatos sobre a questão fiscal. “Se estiverem num cenário como hoje, com o dólar relativamente sob controle, real valorizado, os candidatos vão falar sobre a importância de fazer ajuste, mas sem dar detalhes”, previu.
Ele acredita que um ajuste duradouro exigiria medidas impopulares, como cortes no crescimento de despesas e revisão de indexadores, como o reajuste real do salário mínimo. “É um debate difícil do ponto de vista popular, e não vejo nenhum dos candidatos com um apetite para comprar essa discussão no período eleitoral”, concluiu.

