Os preços das passagens aéreas, que já estavam pressionados, devem enfrentar um aumento adicional nos próximos meses devido ao reajuste de 55% no querosene de aviação (QAV) anunciado pela Petrobras nesta quarta-feira, 1º de abril de 2026. O reajuste ocorre em meio ao choque do petróleo causado pelo conflito no Oriente Médio.
Especialistas apontam que o aumento do QAV reforça uma tendência já observada nas últimas semanas de alta nos preços das passagens, com um repasse quase imediato aos consumidores. Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, afirma que as companhias aéreas não têm margem para absorver esses custos e serão obrigadas a transferi-los aos passageiros.
““O consumidor vai sentir isso direto no valor da tarifa, mas também em um fenômeno que estamos vendo muito: a redução da oferta de voos para destinos menos lucrativos, o que encarece ainda mais as passagens por falta de concorrência”,”
observa Borges.
Em resposta ao aumento, a Petrobras anunciou um mecanismo que permitirá às companhias aéreas parcelar a diferença do reajuste em seis vezes, com início dos pagamentos a partir de julho. A medida visa mitigar os impactos imediatos sobre as companhias e preservar a demanda por voos. Com isso, as distribuidoras que atendem a aviação comercial terão um reajuste efetivo de 18% no preço do QAV em abril.
Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da FGV-EESP, destaca que se a proposta de parcelamento tiver grande adesão, o repasse de preços ao consumidor poderá ser mais gradual nos próximos meses. Ela também ressalta que o impacto dependerá da continuidade da demanda aquecida.
A Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) alertou que, somados os aumentos de 9,4% em março e quase 55% em abril, o QAV passa a representar 45% dos custos operacionais das companhias aéreas.
““A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”,”
diz nota da entidade.
Apesar do anúncio da Petrobras, o aumento dos bilhetes já era visível no mercado. A prévia da inflação de março mostrou um aumento de 5,94%, o maior impacto individual no avanço de 0,44% do IPCA-15. Tatiana Pinheiro observa que as pessoas já notam o aumento das passagens aéreas mesmo antes do reajuste da Petrobras.
Fontes do setor indicam que as companhias aéreas estão buscando definir novas estratégias, o que pode impactar diretamente os consumidores, com a possibilidade de algumas cidades deixarem de ser atendidas. Em um contexto de choque de oferta, a representatividade pode chegar a 50%, conforme os efeitos observados após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
No ano de 2022, o QAV da Petrobras fechou em R$ 5,08 o litro, preço já superado pela média de R$ 5,55 após o reajuste desta quarta. Naquele ano, as passagens aéreas acumularam mais de 100% de alta nos preços, segundo o IPCA do IBGE.
““O impacto direto é na aviação civil. Nesse caso as passagens tendem a ficar mais caras e algumas rotas menos lucrativas podem ser encerradas ou ao menos ter a sua oferta reduzida”,”
avalia Vitor Sousa, analista de ações da Genial.

