A discussão sobre a mudança da escala 6×1 para 5×2, em análise no Congresso Nacional, pode impactar diretamente a hotelaria, setor que opera 24 horas por dia e depende de equipes presenciais em todos os turnos. Chieko Aoki, fundadora e presidente da Blue Tree Hotels, avalia que é necessário preservar a flexibilidade das companhias na gestão das escalas.
“Cada empresa deve poder encontrar suas próprias soluções”, afirma Aoki. A empresária relata que a rede já realizou testes internos de diferentes arranjos de jornada, levando em consideração as preferências e necessidades específicas dos funcionários, especialmente das mulheres com filhos, que têm prioridade de folgas aos fins de semana para conciliar trabalho e família.
Na visão de Aoki, uma padronização rígida pode desorganizar rotinas que já funcionam. “Há colaboradoras que estão bem organizadas com o modelo atual e temem não conseguir mais buscar os filhos ou manter a rotina se tudo mudar de uma vez”, diz. Ela reconhece que a nova regra pode aumentar custos trabalhistas em um setor intensivo em mão de obra, mas descarta repassar essa conta automaticamente ao hóspede.
““Não dá para simplesmente aumentar o preço. O caminho, para nós, será reduzir margem, ajustar operação e explicar com transparência à equipe como será a adaptação”, afirma.”
Aoki também rejeita a ideia de compensar o custo maior com salários mais baixos para novos contratados. “No nosso negócio, sem bom atendimento não há ocupação. Se eu piorar a qualidade só para economizar, vou perder cliente. O ponto é ter pessoas que trabalham com satisfação”, diz.
Apesar do bom momento de negócios, Aoki descreve um quadro desafiador na contratação de pessoal, um fenômeno que se tornou global após a pandemia. “As pessoas querem viajar, ir a shows, congressos e eventos, mas não querem trabalhar atendendo pessoas”, observa. Ela relata dificuldade em atrair profissionais que aceitem a rotina presencial de “encostar a barriga no balcão” e lidar diretamente com o público.
A empresária associa essa mudança de comportamento ao avanço do trabalho remoto e da automação, que teriam contribuído para “robotizar” relações, criando profissionais mais solitários e menos dispostos ao contato humano cotidiano. Para a Blue Tree, isso reforça a necessidade de treinamento intenso e acompanhamento próximo da “energia” das equipes, por meio da chamada “Academia de Excelência”, programa interno obrigatório para todos os colaboradores.
Se em mão de obra o cenário é de aperto, em demanda a fotografia é bem mais favorável. Chieko Aoki afirma que, depois do baque da pandemia, a rede não só recuperou como superou os níveis de desempenho pré-crise, impulsionada pelo aumento de viagens a trabalho, congressos, eventos corporativos e shows.
““Em 2025, o canal direto de reservas da Blue Tree registrou crescimento de 33,74% em relação a 2024, enquanto a receita de grupos e eventos avançou 16% no mesmo período”, diz Aoki.”
Para 2026, o ritmo forte se mantém: no primeiro trimestre, a rede já alcançou alta de 13% na ocupação do segmento de grupos, combinada a crescimento de 15% na diária média do cliente direto e a um salto de 57% na receita de reservas feitas pelo próprio site. Segundo Aoki, esse desempenho reforça o apetite por serviços de padrão superior, mas com relação custo-benefício mais racional que o luxo extremo.
Uma parte relevante da estratégia de crescimento da Blue Tree passa pelo Centro-Oeste e por cidades ligadas ao agronegócio. Em 2025, a rede assumiu a operação de um hotel em Sorriso (MT), município que Aoki descreve como “uma cidade que luta para crescer”, com forte presença de produtores rurais e profissionais altamente qualificados.
A rede tem buscado, nesses mercados, soluções criativas de hospitalidade com menor custo, dado que a diária é mais baixa e não há espaço para estruturas luxuosas, mas o cliente mantém padrão de exigência elevado. A partir dessa experiência, a Blue Tree decidiu concentrar em 2026 seus investimentos em hotéis em cidades e regiões do agro, com um plano de expansão em outras praças do Centro-Oeste e de fronteira agrícola.
A projeção da companhia é atingir 30 empreendimentos em operação no Brasil nos próximos dois anos, consolidando a presença em capitais, grandes centros de negócios e polos do agronegócio. Atualmente, a rede possui 22 hotéis.


