Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelam que 35% das infecções humanas já são resistentes aos medicamentos disponíveis. Além disso, um terço dos países relatou resistência generalizada de patógenos comuns. Nos Estados Unidos e na União Europeia, cerca de 70 mil mortes anuais são atribuídas a infecções resistentes.
O uso inadequado de antibióticos é apontado como a principal causa do crescimento das superbactérias, segundo infectologistas. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que 50% das prescrições de antibióticos em hospitais estão incorretas, o que contribui para o desenvolvimento da resistência bacteriana.
O médico infectologista João Victor Soares, em entrevista, destacou que os dados são alarmantes. “Estima-se que 4,95 milhões de mortes estejam associadas à resistência microbiana no mundo”, afirmou. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou a resistência bacteriana aos antimicrobianos como uma ameaça à saúde pública até 2050, caso não sejam adotadas medidas para contê-la.
O impacto da resistência bacteriana já supera riscos associados a doenças como câncer, diabetes, hipertensão e depressão. O médico expressou preocupação com a falta de recursos para novos medicamentos e o alto custo das tecnologias existentes. “Essa dinâmica impõe a necessidade clínica de combinar antibióticos no tratamento, o que pode aumentar a toxicidade para os pacientes”, explicou.
Soares afirmou que é correto afirmar que existe um cenário epidêmico de superbactérias. “Principalmente após a Covid-19, observamos o surgimento de bactérias com perfis de resistência diferentes e preocupantes, com frequência cada vez maior.” Ele ressaltou que a prescrição inadequada de antibióticos é a principal causa do surgimento de bactérias super-resistentes.
“Os antibióticos servem para tratar bactérias, não vírus. Muitas vezes, pacientes com sintomas de resfriado utilizam esses medicamentos sem necessidade, já que a doença é viral. Isso contribui para a resistência de bactérias que fazem parte da flora natural do organismo”, alertou.
A automedicação também é uma prática perigosa. Pacientes que utilizam sobras de medicamentos sem orientação médica contribuem para o problema. As bactérias têm níveis de resistência estabelecidos: quando sobrevivem a três antibióticos diferentes, são consideradas multirresistentes.
Antes, infecções multirresistentes eram mais comuns em ambientes hospitalares, mas atualmente muitos pacientes chegam às unidades de saúde com essas condições. O médico destacou que uma das infecções mais preocupantes é a meningite, devido à área afetada — o sistema nervoso — e ao histórico recente da doença, que exige a combinação de antibióticos.
“Outro exemplo são as infecções do trato urinário, que podem evoluir para quadros generalizados. Temos observado resistência às principais classes de antibióticos que utilizávamos anteriormente”, concluiu.

