O uso excessivo de telas tem gerado preocupações crescentes sobre seus impactos na saúde mental e física, especialmente entre os jovens. No Brasil, a média de tempo online é de 9 horas e 32 minutos por dia, superando a média global de 6 horas e 37 minutos.
A psicóloga Carla Cavalheiro, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, destaca que os efeitos do uso excessivo de telas se organizam em um ciclo que retroalimenta problemas de ansiedade e depressão. O ambiente digital pode servir como alívio imediato para o sofrimento psíquico, mas também intensifica sintomas existentes.
““É uma via de mão dupla”, resume a especialista.”
A comparação social, alimentada pela exposição a conteúdos idealizados, distorce a percepção de realidade e gera sentimentos de inadequação e baixa autoestima. Dados do IBGE mostram que 88,9% das crianças brasileiras de 10 anos já possuem celular.
O uso excessivo de telas afeta especialmente os jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Cavalheiro explica que a capacidade de autorregulação, essencial para lidar com estímulos constantes, ainda está em construção nessa faixa etária.
Em 2025, uma pesquisa do Projeto Brief revelou que quase metade das crianças e adolescentes brasileiros apresenta sinais de ansiedade ou dificuldade de foco relacionados ao tempo excessivo de tela. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites de uso de telas: até uma hora por dia para crianças de 2 a 5 anos, uma a duas horas para crianças de 6 a 10 anos, e duas a três horas para adolescentes de 11 a 18 anos.
Além dos impactos na saúde mental, o corpo também sofre. O uso prolongado de celulares pode causar problemas na coluna, conhecido como “tech neck”. O ortopedista Luiz Felipe Ambra explica que a posição inclinada da cabeça pode gerar dores persistentes na região cervical.
““Repetido à exaustão, esse gesto vai moldando dores persistentes”, descreve Ambra.”
Embora o uso excessivo de telas não seja oficialmente reconhecido como uma dependência, especialistas observam padrões que indicam prejuízos funcionais e sofrimento psíquico. Cavalheiro ressalta que a dependência comportamental ativa circuitos cerebrais semelhantes aos da dependência química.
Iniciativas para tratar o problema estão surgindo, como o Programa Elibrè para Dependências Digitais, que atende adolescentes e jovens adultos. O Ambulatório dos Transtornos do Impulso da USP também oferece tratamento gratuito para adultos com dependência tecnológica.
O desafio é encontrar um equilíbrio entre o uso online e offline. Cavalheiro enfatiza a importância de reconhecer que as redes sociais são projetadas para capturar atenção e prolongar o uso.

