Pesquisas qualitativas indicam que garantir apenas o básico não é suficiente para conquistar o eleitor brasileiro. O que realmente pesa na avaliação de um governo é a capacidade de gerar a sensação de ascensão social. O tema foi discutido no podcast “O Assunto” desta quinta-feira (9), com base em estudos realizados em “salas de espelho”, onde eleitores são observados enquanto conversam sobre política, economia e cotidiano.
Segundo o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, essas pesquisas revelam uma mudança significativa: programas sociais deixaram de ser vistos como favores e passaram a ser encarados como direitos. Com isso, o sentimento de gratidão diminuiu, impactando também a eficácia eleitoral dessas políticas. “Se é um direito, você não tem por que ter gratidão”, afirma Nunes.
As pesquisas qualitativas acompanham cerca de 30% do eleitorado, conhecido como independentes, um grupo considerado decisivo para os resultados das eleições. Esse grupo demonstra estar em busca de algo além do básico, refletindo uma nova expectativa em relação ao governo.
De acordo com Nunes, o sucesso eleitoral de governos no passado esteve ligado à capacidade de oferecer símbolos de status. Exemplos como o acesso ao ensino superior e a possibilidade de viajar de avião representam mais do que melhoria de renda; eles indicam uma mudança de posição social. “Por que o Lula tinha tanto sucesso quando falava do pobre viajar de avião? Não era dar dinheiro para as pessoas, era dar status”, comenta.
Nas salas de espelho, um relato recorrente é a frustração de não conseguir trocar de celular, que passou a ser um novo marcador de distinção. “Eu não consigo nem trocar meu telefone”, relatam os participantes, evidenciando a dificuldade em acessar bens que simbolizam progresso.
Outro achado das pesquisas é o valor atribuído à exclusividade, como a ideia de ter acesso a espaços diferenciados, simbolizada pela “pulseirinha VIP” em shows e eventos. “O brasileiro adora uma pulseirinha VIP. Ele adora ir para um lugar que dá para ele uma ideia de destaque”, diz Nunes. Esse comportamento é potencializado pelas redes sociais, que ampliam a exposição a estilos de vida mais elevados.
Apesar de indicadores econômicos positivos, como aumento de renda e queda do desemprego, muitos brasileiros sentem que suas vidas não melhoraram. As qualitativas ajudam a explicar esse descompasso. Sem acesso a símbolos que sinalizem ascensão, o avanço econômico não se traduz em satisfação ou voto. Nunes conclui: “Sem o bem-estar do status, da diferenciação, da distinção, efeitos eleitorais não aparecem”.


