A montadora Ford Motor intensificou a pressão sobre o governo de Donald Trump por alívio nas tarifas sobre alumínio, após uma crise na cadeia de suprimentos elevar custos e afetar a produção de veículos nos Estados Unidos.
O problema foi desencadeado por incêndios em uma fábrica da Novelis, no estado de Nova York, considerada a principal fornecedora de chapas de alumínio para a indústria automotiva americana. A unidade segue parcialmente fora de operação, gerando gargalos na produção, especialmente da picape F-150, modelo mais vendido da Ford.
Os incêndios ocorreram no fim de 2025 em uma etapa crucial da produção, onde o alumínio é transformado em chapas usadas na carroceria de veículos. Sem capacidade doméstica suficiente para substituir rapidamente a produção perdida, a Novelis passou a importar alumínio de fábricas na Europa e na Ásia.
O problema é que esse material está sujeito a tarifas de até 50%, dentro do regime comercial adotado pelo governo Trump. Na prática, o custo adicional é repassado às montadoras, ampliando a pressão sobre margens e preços.
A Ford Motor estima já ter absorvido um impacto de cerca de US$ 2 bilhões com a interrupção da produção e prevê gastar mais US$ 1 bilhão neste ano com a importação de alumínio mais caro. A empresa solicitou ao governo uma suspensão temporária das tarifas até que a fábrica da Novelis retome plenamente as operações, o que pode levar meses.
Até agora, porém, a Casa Branca tem resistido aos pedidos, argumentando que já concedeu flexibilizações parciais em outras tarifas do setor automotivo. Especialistas apontam que o impacto das tarifas vai além das importações diretas.
Mesmo o alumínio produzido nos Estados Unidos incorpora um “prêmio” de mercado que reflete o custo das tarifas, o que significa que fabricantes pagam mais caro pelo insumo independentemente de sua origem. Esse efeito encarece toda a cadeia produtiva e reduz a competitividade da indústria americana, especialmente em comparação com mercados onde o custo de insumos é menor.
A crise ocorre em um momento de endurecimento da política tarifária dos Estados Unidos. Recentemente, o governo ampliou a incidência de tarifas sobre produtos que utilizam aço e alumínio, passando a taxar o valor total dos bens — e não apenas o conteúdo metálico. A mudança pode elevar ainda mais os custos para montadoras e outros setores industriais.
O aumento dos custos tende a ser repassado, ao menos parcialmente, aos consumidores finais. No setor automotivo, isso pode significar veículos mais caros ou margens menores para as montadoras, em um momento em que a indústria já enfrenta desafios como a transição para veículos elétricos e a desaceleração da demanda global.
Para analistas, o caso da Ford ilustra como choques industriais, como incêndios, podem se amplificar em ambientes de alta proteção comercial, criando efeitos em cadeia sobre preços, produção e emprego. O episódio reforça um dilema central da política econômica americana: ao mesmo tempo em que busca fortalecer a indústria local, o aumento de tarifas pode tornar cadeias produtivas mais caras e menos resilientes.


