A concentração de riqueza global atingiu um novo patamar. Um grupo reduzido de bilionários mantém trilhões de dólares em paraísos fiscais, fora do alcance de governos e sistemas tributários, superando a riqueza da metade mais pobre da população mundial.
Dados publicados pela Oxfam indicam que os 0,1% mais ricos acumulam cerca de US$ 2,84 trilhões em ativos não declarados no exterior. Esse valor é maior do que toda a riqueza de aproximadamente 4,1 bilhões de pessoas.
Uma década após os escândalos dos Panama Papers, o uso de estruturas offshore continua disseminado. O escândalo expôs como políticos, empresários e celebridades utilizavam empresas de fachada para esconder patrimônio e evitar impostos, mas teve impacto limitado sobre o funcionamento do sistema financeiro global.
Desde então, mecanismos de transparência foram ampliados, mas não o suficiente para conter o fluxo de riqueza para jurisdições com baixa tributação e alto sigilo bancário. Atualmente, estima-se que a riqueza total mantida em paraísos fiscais ultrapasse US$ 13 trilhões, o equivalente a mais de 12% do PIB global.
A desigualdade dentro do grupo dos super-ricos também é alarmante. Cerca de 80% dos ativos não tributados offshore estão concentrados nas mãos dos 0,1% mais ricos, e uma fração ainda menor, o 0,01%, responde por mais da metade desse valor. Essa concentração amplia a distância entre o topo e a base da pirâmide econômica global.
A evasão fiscal global afeta de forma mais intensa países em desenvolvimento, que têm menor capacidade de rastrear ativos no exterior e recuperar receitas perdidas. Embora mais de 120 países participem de acordos internacionais de troca de informações financeiras, muitos governos ainda enfrentam dificuldades técnicas e financeiras para implementar esses sistemas.
Isso limita o acesso a dados sobre cidadãos que mantêm patrimônio fora de seus países de origem. Como resultado, recursos que poderiam ser destinados a políticas públicas, como saúde, educação e infraestrutura, permanecem fora do alcance estatal.
Diante desse cenário, cresce a pressão internacional por mudanças estruturais. Negociações na Organização das Nações Unidas buscam criar um novo modelo de cooperação tributária global, mais inclusivo do que o atual sistema liderado por países ricos.
Entre as propostas em discussão estão a criação de um imposto global sobre grandes fortunas e a implementação de registros internacionais de ativos, que permitiriam identificar os verdadeiros donos de empresas e propriedades. Especialistas afirmam que, sem maior transparência e coordenação entre países, o sistema offshore continuará funcionando como uma válvula de escape para os mais ricos.
Centros financeiros como Suíça, Luxemburgo e ilhas do Caribe continuam sendo destinos preferenciais para grandes fortunas, oferecendo benefícios fiscais, sigilo e estruturas legais que dificultam a identificação dos proprietários reais dos ativos. Estudos indicam que alguns países europeus perdem parte significativa de sua arrecadação devido à transferência de lucros e patrimônio para esses locais.
A manutenção de grandes volumes de riqueza fora do sistema tributário reforça o debate sobre justiça fiscal e desigualdade. Em um momento em que governos enfrentam pressões por mais gastos sociais e investimentos em transição climática, a dificuldade de tributar grandes fortunas se torna ainda mais relevante.
O avanço das discussões sobre taxação global indica que o tema deve ganhar centralidade nos próximos anos. No entanto, a velocidade das mudanças é considerada insuficiente diante da escala do problema, e a disputa entre transparência e sigilo financeiro permanece favorável aos mais ricos.


