O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Mohammad Eslami, descartou, nesta quinta-feira, 9, a possibilidade de restringir o programa de enriquecimento de urânio do país. Essa é uma das principais exigências dos Estados Unidos e de Israel durante as tratativas que ocorrerão nas próximas duas semanas de cessar-fogo.
“As reivindicações e exigências de nossos inimigos, que buscam restringir o programa de enriquecimento do Irã, não passam de ilusões que serão enterradas”, afirmou Eslami em entrevista à agência de notícias estatal Isna.
Na terça-feira, os Estados Unidos e o Irã concordaram com uma trégua de duas semanas e o início de negociações para encerrar uma guerra que causou centenas de milhares de mortes e afetou a economia global. A primeira reunião está agendada para este final de semana no Paquistão, com o enriquecimento de urânio no Irã como um dos principais pontos de discórdia.
Eslami declarou: “Todas as conspirações e ações de nossos inimigos, incluindo esta guerra brutal, não levaram a nada”. Segundo ele, os Estados Unidos tentam, em vão, alcançar, “por meio de negociações”, os objetivos que não conseguiram na guerra.
Washington acusa Teerã de estar próximo de fabricar uma arma nuclear, alegação que não é corroborada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A República Islâmica nega ter a intenção de desenvolver uma bomba atômica, afirmando que seu programa nuclear é voltado apenas para fins civis. No entanto, a AIEA revelou a presença de urânio enriquecido em até 60%, totalizando mais de 400 quilos do material, próximo do patamar de 90% de pureza necessário para a produção de uma bomba nuclear.
Apesar de partes da trégua anunciada na terça-feira não estarem claras, alguns dos 15 pontos exigem que o Irã não possua armas nucleares e que entregue seu estoque de urânio altamente enriquecido. A contra-proposta iraniana, com dez pontos, prevê “aceitação do enriquecimento”. A Casa Branca indicou que o plano recebido do governo islâmico não corresponde com a versão divulgada pelos aiatolás.
Na quarta-feira, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, advertiu que os Estados Unidos “tomarão” o estoque de urânio do Irã caso o país não concorde em entregá-lo voluntariamente. Trump havia afirmado que “não haverá mais enriquecimento de urânio” na nação persa e que Washington e Teerã trabalhariam juntos para “remover” a reserva de material nuclear do país.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, rebateu que a negação do direito do Irã ao enriquecimento de urânio viola uma cláusula-chave da proposta de dez pontos, “tornando um cessar-fogo bilateral ou negociações inviáveis”. A guerra teve início em meio a negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano, que se encontravam em impasse.
A tensão em torno do tema se intensificou após a erosão do acordo de 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global, que impunha limites ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções. Desde a saída unilateral dos Estados Unidos do pacto, durante o primeiro mandato de Trump, o Irã ampliou seus níveis de enriquecimento e reduziu a cooperação com inspetores internacionais.
Em junho de 2025, os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares e militares iranianas durante o conflito entre Tel Aviv e Teerã. Antes dos bombardeios, a AIEA estimava que Teerã possuía cerca de 440 kg de urânio enriquecido a 60%. O chefe da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que cerca de 200 kg do material que sobreviveram aos ataques aéreos estariam armazenados em túneis profundos próximos ao complexo nuclear de Isfahan, enquanto outra quantidade estaria em Natanz, onde o Irã construiu uma nova instalação fortificada e subterrânea.

