Uma combinação de fatores ambientais, incluindo o aquecimento global, o desmatamento e transformações no uso da terra, está alterando o mapa das doenças transmitidas por mosquitos no Brasil.
Cientistas alertam que as mudanças no clima e na paisagem favorecem a expansão de vetores como o Aedes aegypti, responsável pela dengue, e do maruim (Culicoides paraensis), principal transmissor da febre do Oropouche.
O avanço desses insetos não ocorre de forma isolada. Para pesquisadores da área de saúde pública, a proliferação dessas doenças funciona como um indicador direto de desequilíbrios ambientais que se intensificaram nas últimas décadas.
O mosquito Aedes aegypti tem encontrado condições cada vez mais favoráveis em um planeta mais quente. A biologia do inseto responde rapidamente às variações de temperatura. De acordo com um artigo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, o aumento de apenas dois graus pode acelerar drasticamente o desenvolvimento do vetor: a 25°C, o ciclo de ovo a adulto leva 8,86 dias; a 27°C, esse tempo cai para 7,30 dias.
Com ciclos mais curtos, a população cresce com maior velocidade. Modelos climáticos publicados na PLOS Neglected Tropical Diseases indicam que, sob cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, a densidade do Aedes aegypti pode aumentar em até 92% no Sudeste brasileiro até o ano de 2080.
Para mitigar esse risco, cientistas têm testado estratégias inovadoras, como o monitoramento de criadouros com drones e a liberação de mosquitos com a bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade do inseto de transmitir vírus.
Fora dos centros urbanos, o maruim (Culicoides paraensis) preocupa especialistas por ser o principal transmissor da febre do Oropouche. Ao contrário do mosquito da dengue, ele deposita seus ovos em ambientes úmidos e ricos em matéria orgânica, como solos encharcados e resíduos vegetais.
A relação entre o manejo agrícola e o aumento desses insetos é evidente em regiões como o Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Em entrevista, o pesquisador Caio Cezar Dias Corrêa, doutor em zoologia, explicou que o cultivo de bananas é um fator central quando o manejo é inadequado. “O processo de corte do tronco após a colheita deixa exposta a parte que entrará em decomposição, sendo o local perfeito para a criação das larvas”, destacou.
A febre do Oropouche e a febre do Mayaro, historicamente restritas à Amazônia, estão ampliando sua área de ocorrência. Análises geoespaciais publicadas nos Cadernos de Saúde Pública (Fiocruz) mostram uma sobreposição clara entre as áreas de maior incidência dessas doenças e as regiões intensamente desmatadas.
A perda de cobertura florestal altera os habitats naturais, provocando o chamado “transbordamento viral” (spillover): patógenos que antes circulavam apenas em ambientes silvestres passam a infectar populações humanas com maior frequência. Atualmente, o vírus do Oropouche já foi identificado em estados fora da Amazônia, como o Espírito Santo, indicando uma adaptação do ciclo de transmissão a novos territórios.
Embora o controle direto seja necessário, pesquisadores enfatizam que o combate às doenças transmitidas por mosquitos exige uma abordagem integrada que preserve o funcionamento dos ecossistemas. Em ambientes naturais equilibrados, diversos organismos atuam na regulação natural dessas populações.
No fim das contas, o aumento dessas doenças é um alerta ecológico: quando o ambiente se transforma rapidamente, os microrganismos e os insetos que os transportam encontram novas oportunidades para se espalhar, desafiando a saúde pública e a conservação ambiental.

