A multinacional suíça Nestlé é citada em um episódio do podcast Perdas e Danos, que revela seus vínculos com a ditadura militar no Brasil. O episódio 2, intitulado Caixa, detalha como a empresa contribuiu para o regime de opressão.
O executivo Gualter Mano, então presidente da Nestlé Brasil, fez contribuições ao IPES, um think tank conservador que ajudou a preparar o golpe de 1964. O Arquivo Nacional possui comprovantes dessas contribuições.
A Nestlé também é mencionada no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que documenta o apoio de várias empresas ao regime militar. O relatório revela que a empresa colaborou com a OBAN, um dos maiores aparatos de tortura da ditadura.
Oswaldo Ballarin, executivo da Nestlé, foi homenageado em 1970 pelo chefe do Estado-Maior do II Exército, general Ernani Ayrosa, por seu apoio à repressão. Ballarin ocupou o cargo de presidente executivo da Nestlé entre 1971 e 1978 e também foi presidente da Brown Boveri durante o mesmo período.
Ballarin é acusado de contratar a CIA (Consultores Industriais Associados), que atuava na vigilância de trabalhadores e na organização de recursos para os aparatos de tortura do Estado. A pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, encontrou documentos que mostram as relações da Brown Boveri com a CIA.
Em 1979, Jean Ziegler, membro do Conselho Nacional Suíço, acusou Ballarin de transferir fundos da Nestlé para a CIA, implicando a empresa em homicídios premeditados. Ballarin faleceu em 1999, alegando que sua relação com o DOI-Codi era limitada às atividades de relações públicas da CIA.
Embora a Nestlé não tenha permitido acesso aos arquivos da pesquisadora, os dados mostram que a empresa teve um crescimento significativo durante o regime militar, com uma rentabilidade que dobrou entre 1971 e 1975.
Ballarin também foi criticado por sua atuação em promover leite em pó, prejudicando o aleitamento materno. A Nestlé foi acusada em um relatório de 1974 da organização War on Want de ser responsável pela morte de crianças em países pobres devido à sua estratégia de marketing.
A Nestlé, em resposta às denúncias, reconheceu a importância de discutir seu papel durante o período da ditadura, mas não forneceu detalhes específicos sobre suas ações.


