A saúde é um tema central nas decisões de voto, especialmente entre mulheres, conforme revelam pesquisas qualitativas realizadas em “salas de espelho”. O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, apresentou essas informações no episódio do podcast “O Assunto” desta quinta-feira (9).
As pesquisas qualitativas buscam entender percepções e motivações do eleitorado, indo além dos números tradicionais. Enquanto segurança pública e corrupção dominam o discurso político, a saúde se destaca como uma preocupação recorrente nas conversas dos eleitores, embora pouco explorada pelos candidatos.
Nos encontros, grupos selecionados discutem temas políticos por até duas horas, com mediação. “O objetivo não é medir, mas entender explicações, interpretações e sentimentos”, explica Nunes. Ele destaca que os insights obtidos nessas salas são fundamentais para os marqueteiros na política.
Um dos principais achados envolve eleitoras independentes, consideradas decisivas para 2026. Nesses encontros, a saúde é uma preocupação constante, mas não se traduz em propostas claras. “As mulheres estão dizendo que não estão seguras sobre como o governo tratou a saúde”, afirma Nunes.
A percepção das eleitoras é marcada por dúvidas, sem informações suficientes que as convençam sobre a atuação do governo na área da saúde. A gestão da saúde durante a pandemia de Covid-19 ainda influencia essa avaliação. Nunes afirma que “o grande calcanhar de Aquiles que fez Bolsonaro perder apoio foi a forma como ele lidou com a pandemia”.
Apesar disso, a saúde continua ausente das prioridades de campanha. “Se a gente prestar atenção, ninguém está falando de saúde. O assunto é morno”, diz o pesquisador. Além da avaliação do passado, há uma demanda não atendida por acesso a médicos especialistas, que ainda não entrou na pauta dos candidatos.
As pesquisas também revelam diferenças entre homens e mulheres. Enquanto os homens priorizam segurança pública e status, as mulheres demonstram maior preocupação com políticas de bem-estar social. “As mulheres olham para o Estado como apoio para o fardo que carregam — cuidar da casa, dos filhos e trabalhar”, explica Nunes.
A frustração com os resultados percebidos é evidente. Uma eleitora mencionou que, mesmo com Lula sancionando a Lei Maria da Penha, a violência contra a mulher está aumentando sem resposta do governo. Para Nunes, essa fala sintetiza uma cobrança por proteção mais efetiva, que inclui a saúde pública.
Eleitores independentes, que representam cerca de 30% do eleitorado, estão cansados da polarização e buscam alternativas, mas ainda não identificaram um candidato. “Eles votaram com expectativa de mudança e se frustraram”, afirma Nunes. A saúde é um tema que as salas de espelho conseguem captar antes de aparecer nas estatísticas, revelando sua força nas discussões.


