A situação econômica na Argentina mostra que ter um emprego não é garantia de proteção contra a pobreza. Antonela, uma argentina de 37 anos, trabalha de segunda a sábado em um instituto privado de bioquímica em Buenos Aires, onde realiza tarefas administrativas. Apesar de ter um emprego formal e um salário acima do mínimo, ela enfrenta dificuldades financeiras e precisa complementar sua renda com um trabalho adicional em uma empresa farmacêutica.
“Custa para mim, entender que, antes, eu podia levar uma vida que, agora, não posso”, lamenta Antonela. Ela afirma que se sente em ‘modo sobrevivência’. A pobreza no país caiu para 28%, seu nível mais baixo em sete anos, mas o emprego formal se deteriorou, com oito meses consecutivos de queda no ano passado, conforme dados do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires (UBA).
A diretora da área de Emprego, Distribuição e Instituições Trabalhistas da UBA, Roxana Maurizio, afirma que “ter emprego não é mais um seguro contra a pobreza na Argentina”. Um estudo revela que um em cada cinco trabalhadores argentinos vive em situação de pobreza, e entre os trabalhadores informais, esse número sobe para um a cada três.
O governo do presidente Javier Milei anunciou a redução da pobreza, mas analistas questionam a veracidade dos dados. O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu a queda da pobreza ao crescimento econômico e à redução da inflação, mas especialistas como Daniel Schteingart, da plataforma Argendata-Fundar, afirmam que a diminuição é exagerada devido a fatores metodológicos.
Além disso, a pesquisa da Dívida Social Argentina da Universidade Católica indica que 20% dos trabalhadores formais estão em situação de pobreza, enquanto esse percentual chega a 26% entre os informais. A precariedade no mercado de trabalho é um problema crescente, com mais da metade dos trabalhadores empregados no setor microinformal.
Antonela relata que seu salário tem perdido poder de compra, com uma queda de mais de 20% entre 2010 e 2025. A inflação acumulada nos últimos 12 meses é de 33%, e cerca de seis milhões de pessoas trabalham na informalidade, sem acesso a direitos trabalhistas básicos.
Os especialistas concordam que a informalidade e a precariedade trabalhista são fatores que contribuem para a situação de pobreza entre os trabalhadores. Donza, da UCA, destaca que a mobilidade social ascendente tem se debilitado nas últimas décadas, com quatro em cada dez pessoas afirmando estar em pior situação econômica do que seus pais. Antonela espera um dia deixar de lado o ‘modo sobrevivência’ e ter uma vida mais confortável.


