Lourdes das Neves Ferreira, vítima do acidente com césio-137 em Goiânia, compartilhou suas experiências após assistir à série Emergência Radioativa, disponível na Netflix. A série, embora não totalmente fiel aos eventos, trouxe à tona memórias de um passado doloroso.
Em seu relato, Lourdes recorda o momento em que seu marido, Ivo, trouxe o pó do césio-137 para casa. ‘Tive pavor, medo, não achei bonito’, disse. A família foi isolada em um campo de futebol e, posteriormente, Lourdes foi levada para um dormitório na antiga Febem, onde passou três meses sem acesso a TV ou rádio.
Durante esse período, ela foi separada de seus filhos, Leide e Lucimar, que tinham 6 e 14 anos na época. Leide foi transferida para o Rio de Janeiro para tratamento especializado, e Lourdes nunca mais a viu. ‘Recebi a notícia do falecimento da minha cunhada Maria Gabriela Ferreira e, no mesmo dia, da Leide’, relembra. ‘Foi um momento tão duro, tão difícil.’
No enterro de Leide, Lourdes enfrentou manifestantes que não queriam a presença da filha no cemitério. ‘Me despedi da minha filha sendo apedrejada’, afirmou. Após o acidente, a família perdeu sua casa, que foi demolida devido à contaminação, e recebeu uma nova residência do governo, onde Lourdes vive até hoje.
Com a tragédia, Lourdes se tornou cuidadora de Ivo, que desenvolveu depressão e morreu de enfisema pulmonar em junho de 1994. Seu filho, atualmente com 52 anos, também enfrenta problemas de saúde, incluindo pneumonia e paradas cardíacas. Apesar das dificuldades, Lourdes encontrou alegria em sua família, que inclui uma filha mais velha e doze bisnetos.
Ela expressou sua determinação em lutar e ser feliz, afirmando: ‘Se sobrevivi, é porque Deus quis’. Lourdes também comentou sobre sua saúde, preferindo não associar seus problemas ao césio-137. ‘Tenho pressão alta, um problema sério na coluna e nas articulações, mas prefiro achar que é por causa da idade.’
A série ajudou a reavivar a discussão sobre o acidente, e Lourdes destacou que o reajuste de sua pensão estava congelado há oito anos em R$ 954, mas agora receberá um salário mínimo. ‘Estávamos esquecidos. O que passamos foi muito grave e não pode se repetir de jeito nenhum.’
“‘Decidi lutar e ser feliz’, disse Lourdes.”


