O sistema de alerta precoce do Nepal não conseguiu avisar a população sobre a enchente que devastou vales do país nesta quarta-feira (26). Segundo cientistas e especialistas, a rede de medidores em rios e lagos não estava preparada para a velocidade da inundação, que matou centenas de pessoas e deixou mais de 1.000 desaparecidos.
Geólogos atribuem a enchente a uma combinação de avalanche glacial e deslizamento de terra em grande altitude, que liberou enormes volumes de água. A origem do fenômeno ocorreu em uma região remota do Himalaia, o que tornou a detecção e o aviso aos moradores praticamente impossíveis.
A rede de sensores do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal é projetada para detectar elevações graduais, comuns em monções. No entanto, a inundação de quarta-feira foi tão rápida que os medidores detectaram a água quando já era tarde para a evacuação. Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade Grenoble Alpes, afirmou que, em eventos desse tipo, os próprios sensores costumam ser destruídos.
Basanta Raj Adhikari, diretor do Centro de Estudos sobre Desastres da Universidade Tribhuvan, disse que o governo estava preparado para cheias recorrentes, mas não para uma inundação repentina com essa velocidade. Shushil Kumar Shrestha, engenheiro sênior da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres, informou que o intervalo entre o início do evento e a chegada da água foi extremamente curto.
O deslizamento inicial ocorreu na face norte da cadeia montanhosa de Langtang, área descrita pelo pesquisador Austin Lord, do Stimson Center, como um ponto cego raramente monitorado. O impacto foi tão intenso que o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou o evento como um sismo de magnitude 5,2.
Para evitar novas tragédias, especialistas sugerem a instalação de sistemas de detecção de atividade sísmica e o aprimoramento do monitoramento por satélite. Segundo Lord, o aquecimento global é um fator que aumenta a probabilidade, a escala e a frequência desses colapsos de encostas.

