Com rejeição superior a 50% a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois principais candidatos à Presidência, as campanhas intensificam na reta final apelos para que os eleitores compareçam às urnas no dia 4 de outubro. O temor é que a abstenção, historicamente alta entre idosos, cresça e defina um placar que pode ser decidido por poucos votos.
Após um 2022 com reduzida alienação eleitoral — soma da abstenção com votos em branco ou nulos —, analistas aventam a possibilidade de um percentual maior de não voto neste ano. O cenário se baseia em dados como a rejeição alta aos dois postulantes e na percepção de que a campanha, marcada por escândalos, mobilizou pouco as militâncias e deixou o eleitor extenuado.
Quase um em cada quatro eleitores tem mais de 60 anos, e Lula registra entre eles, nas pesquisas Quaest e Datafolha recentes, sua maior vantagem contra Flávio. Como o voto é facultativo a partir dos 70, idade em que a abstenção não exige justificativa, o presidente passou a pedir nos últimos dias para que os idosos compareçam às urnas.
— Precisamos convencer as pessoas de 70 anos a votar. Levanta a bunda e vai votar, o Brasil precisa de você — pediu durante carreata em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, na quinta-feira. O petista também gravou vídeo com a influenciadora Ademara, que soma cerca de 700 mil seguidores no Instagram, no qual fez o mesmo clamor. O conteúdo cita que a abstenção entre brasileiros acima de 70 anos, um em cada dez eleitores aptos, ficou próxima dos 60% em 2022.
Outro movimento, via caneta do governo, foi o anúncio de que o voto na eleição servirá como prova de vida a aposentados e pensionistas do INSS. Já Flávio quer convencer as pessoas a saírem de casa com base no argumento de que representa a mudança, dizem integrantes da campanha. O discurso foi ensaiado em entrevista à TV Globo, ainda em agosto, e tende a ser martelado nesta semana final, a fim de explorar a alta desaprovação ao governo.
— Foram mais de 32 milhões de pessoas que não foram votar nas eleições de 2022, e ela foi decidida por algo em torno de 2 milhões de votos. É muito importante que você participe se você também quer uma mudança no seu país — pediu o senador na ocasião. A tentativa de se vender como a mudança dialoga com a onda global de vitórias da oposição, marcante depois da pandemia.
O cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV-CPDOC, avalia que as pesquisas recentes não permitem prever de forma inequívoca que haverá aumento da abstenção e de votos em branco e nulos. Mas, pela percepção que tem da campanha, é o que ele espera. — Intuitivamente, acredito que haverá um incremento das duas coisas: abstenção e brancos e nulos. Posso estar errado — ressalva. — É claro que, se a eleição ficar mais renhida no segundo turno, o eleitorado ainda apático pode ser convencido a sair de casa.
A Quaest tem um dado que faz o diretor do instituto, Felipe Nunes, considerar que Flávio corre o risco de ser prejudicado pelo não voto: apenas 50% dos eleitores que se dizem de direita, mas não bolsonaristas, acham que o filho de Bolsonaro era o melhor nome possível do campo para a disputa. Na esquerda não lulista, 79% avaliam que Lula é a opção ideal. Mauricio Moura, fundador do instituto Ideia, diz que há um conjunto de dados que permite esperar participação reduzida. — É um ciclo eleitoral de baixo entusiasmo. Os dados que corroboram esse sentimento são as altas rejeições das principais candidaturas, o elevado índice de indecisos na pergunta espontânea de intenção de voto e, ainda relevante, o percentual de eleitores que dizem não ter o voto definido — elenca. — Essa combinação costuma gerar um aumento de abstenção, brancos e nulos.


