A devastação da Amazônia compromete a principal infraestrutura hídrica da América do Sul, conhecida como a maior máquina de chuva do planeta. Segundo pesquisadoras, o desmatamento e as queimadas já reduzem o volume de chuvas em regiões do Brasil e da Bolívia, ameaçando a estabilidade climática global.
O sistema funciona através da absorção de água do solo pelas árvores, que a lançam na atmosfera como vapor. Esse processo cria os chamados rios voadores, que transportam a umidade para todo o continente. Uma única árvore adulta pode liberar entre 200 e 300 litros de água diariamente.
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, afirmou que atividades como mineração e narcotráfico atingem a conectividade do bioma. A perda dessa integração afeta o ciclo de nutrientes e carbono. Em áreas desmatadas, as temperaturas subiram e as épocas de seca tornaram-se mais intensas e longas.
A pesquisadora Julia Valentim Tavares monitora a borda sul da floresta, região chamada de arco do desmatamento. Ela investiga a resistência das árvores a secas prolongadas, que podem causar a ruptura das fibras internas da planta, levando-a a morrer por falta de água.
O impacto já atinge cidades fora da região amazônica. Em 2024, a pior seca da história do bioma, impulsionada pelo El Niño, afetou 88% da bacia. O fenômeno causou desabastecimento de água em Bogotá, na Colômbia, e cortes de energia elétrica em Quito, no Equador.
A previsão de um novo El Niño forte até fevereiro de 2027 gera alerta entre os cientistas. A combinação de secas e incêndios pode fazer com que a floresta deixe de absorver carbono e passe a emitir o gás, acelerando o aquecimento global.
Para Peñaclaros, a solução exige a redução drástica de emissões de gases do efeito estufa e a substituição de combustíveis fósseis. A copresidente do Painel Científico defendeu a restauração de áreas degradadas para evitar que a Amazônia atinja o ponto de não retorno.


