A alta nos juros dos títulos do Tesouro americano, nos maiores patamares em quase duas décadas, impulsionou a procura de investidores brasileiros por ETFs europeus, conhecidos como UCITS. Domiciliados na Irlanda ou Luxemburgo, esses fundos oferecem vantagens fiscais e operacionais superiores aos ativos listados nos Estados Unidos.
A principal diferença reside no tratamento dos juros semestrais dos Treasuries. Nos ETFs europeus de acumulação, os valores são reinvestidos no próprio fundo sem distribuição ao cotista. Esse mecanismo evita a retenção de imposto na fonte nos EUA, permitindo que o capital renda ao longo dos anos sem a incidência imediata de tributos.
Uma simulação da XP Investimentos indica que, em uma aplicação de US$ 100 mil por sete anos, um ETF UCITS de títulos públicos americanos entregaria um ganho adicional de US$ 7.560 em comparação a um ETF americano equivalente. O montante representa cerca de 1% de retorno extra ao ano.
Nos fundos americanos, a regulação exige a distribuição de rendimentos, sobre os quais incide imposto na fonte de 30%. Embora o investidor estrangeiro seja isento, as instituições retêm o valor de todos os cotistas, exigindo um processo de restituição. Marcelo Cabral, sócio fundador da Stratton Capital, explicou que a ausência do fato gerador do imposto torna o UCITS superior para quem investe do Brasil.
Outro benefício é a isenção do Estate Tax, imposto sobre herança americano que atinge ativos nos EUA acima de US$ 60 mil com alíquotas entre 18% e 40%. Clara Sodré, analista da XP Investimentos, informou que os UCITS ficam fora dessa cobrança por possuírem domicílio fiscal na Irlanda ou Luxemburgo, jurisdições com acordos com o governo americano.
O cenário de diversificação ocorre sob pressão da renda fixa americana, influenciada por tensões entre Estados Unidos e Irã e incertezas fiscais. Para conter a volatilidade, o Tesouro americano dobrou em agosto as recompras de títulos longos, enquanto o Federal Reserve mantém a possibilidade de novas altas de juros.
Cabral avalia que a melhor relação risco-retorno está atualmente nos títulos com vencimento entre dois e cinco anos, visando menor volatilidade. Já Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, vê oportunidade em papéis próximos a 10 anos, que oferecem retornos nominais e reais adequados aos padrões americanos.

