A Justiça do Irã confirmou a condenação da cantora Parastoo Ahmadi, de 29 anos, a 74 chibatadas por realizar e publicar, em dezembro de 2024, uma apresentação na qual aparece cantando sem o hijab. A sentença, proferida em junho, foi mantida em segunda instância. A artista também ficará proibida por dois anos de exercer atividades audiovisuais e de deixar o país.
A própria cantora informou a confirmação da sentença em publicação no Instagram. Segundo Ahmadi, a Seção 16 do Tribunal de Recurso da província de Qom rejeitou as objeções apresentadas pelos acusados e manteve “sem qualquer alteração” a decisão tomada em primeira instância pela Seção 122 do Tribunal Penal de Qom.
O caso teve origem em 11 de dezembro de 2024, quando Ahmadi publicou no YouTube um vídeo de cerca de 27 minutos de um concerto transmitido ao vivo do caravançarai de Deir Gachin, na província de Qom. Na apresentação, a cantora aparece usando um vestido longo preto, com os ombros descobertos e sem o hijab, enquanto interpreta músicas acompanhada por quatro músicos homens.
Em menos de 24 horas após a publicação, as autoridades judiciais anunciaram a abertura de um processo contra Ahmadi e os demais envolvidos por realizarem o concerto sem autorização e por supostamente desrespeitarem normas legais e religiosas. A artista e integrantes da equipe chegaram a ser detidos após a divulgação da apresentação, mas foram posteriormente libertados.
Além de Ahmadi, outros oito músicos e integrantes da equipe receberam as mesmas punições: 74 chibatadas, dois anos de proibição de exercer atividades audiovisuais e dois anos sem poder deixar o Irã. O tribunal considerou a apresentação “obscena” e contrária às normas morais e religiosas do país. A defesa argumentou que a produção tinha caráter artístico e não envolvia intenção criminosa.
Para organizações de direitos humanos e advogados que acompanharam o caso, a condenação faz parte de um cenário mais amplo de repressão a artistas que desafiam publicamente as normas do regime iraniano. Moein Khazaeli, advogado de direitos humanos do Dadban, centro de aconselhamento jurídico para ativistas iranianos, afirmou que o açoite levanta preocupações quanto às obrigações internacionais dos Estados de proibir a tortura e salvaguardar a dignidade humana.
Nascida em 1997, em Nowshahr, no norte do Irã, Ahmadi é cantora, compositora e cineasta. Ela ganhou maior projeção durante os protestos que tomaram o país em 2022 após a morte de Mahsa Amini, jovem detida pela Polícia da Moral por causa do uso do véu islâmico. Na ocasião, lançou a música “Do sangue da juventude da pátria”, que chamou a atenção das autoridades.
A confirmação da condenação provocou críticas de defensores dos direitos humanos e de artistas iranianos. Bahar Ghandehari, diretora de advocacy do Centro para os Direitos Humanos no Irã, afirmou que a punição é um lembrete de que as condições de direitos humanos no país não mudaram. A atriz iraniano-britânica Nazanin Boniadi também criticou a sentença.


