Ao Ganha Pouco, loja de fazendas e modas que funcionava no nº 86 da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, foi demolida em 1904 para a abertura da Avenida Central, futura Avenida Rio Branco. O estabelecimento, dirigido por M. Fonseca, adotava a estratégia de vender muito e ganhar pouco, com preços reduzidos e vendas apenas a dinheiro.
A casa funcionava no nº 86 da Rua do Ouvidor, sob a direção de M. Fonseca, e vendia fazendas, modas e armarinho. Havia tecidos de luxo e de estação, roupas brancas para homens e senhoras, roupa de cama e mesa e artigos para enxovais de noivado. Em 1902, sua publicidade avisava que os preços eram “extraordinariamente reduzidos” e estabelecia uma regra que ajuda a compreender seu modelo comercial: “Vendas só a dinheiro”.
O nome não significava que a loja fosse destinada apenas a quem ganhava pouco. Quem se propunha a ganhar pouco era o próprio comerciante. Em sucessivos anúncios publicados na revista ilustrada luso-brasileira Brasil-Portugal, o estabelecimento explicava sua filosofia numa frase que poderia ter saído de um manual moderno de varejo: “Vender muito e ganhar pouco.” O objetivo era simples: margem menor, venda maior, pagamento à vista e giro rápido da mercadoria.
O nº 86 ficava num trecho extraordinariamente comercial. Poucos passos separavam suas vitrines de casas cujos nomes atravessaram a história do velho Rio. A poucos metros dali estava o nº 86-A, na esquina da Rua dos Ourives, ocupado pela célebre Farani Sobrinho & C., uma das grandes joalherias cariocas. Mais adiante, o mesmo Rio conhecia casas como a Casa Vianna, com suas porcelanas e cristais, e a Casa Edison, que faria o som entrar definitivamente no comércio da cidade.
Uma fotografia preservou sua fachada. Sobre o pavimento comercial, um enorme letreiro atravessava a frente do estabelecimento: AO GANHA POUCO — 86 — FAZENDAS E MODAS — 86. Acima dele ainda estava o velho sobrado carioca, com janelas altas e sacadas de ferro. Embaixo, a loja se abria para a rua.
Então veio 1904. A construção da Avenida Central rasgou o tecido urbano do Centro, derrubando quarteirões inteiros para abrir o grande boulevard que simbolizaria a capital republicana. O prédio do Ao Ganha Pouco foi demolido na abertura da Avenida Central. Em 1904, um anúncio apareceu com um cabeçalho que devia chamar imediatamente a atenção de qualquer carioca: AVENIDA CENTRAL — AO GANHA POUCO — 86 RUA DO OUVIDOR 86. Em seguida vinha a explicação: “Em virtude da abertura da Avenida Central, o GANHA POUCO, à rua do Ouvidor n. 86, vê-se forçado a liquidar seu enorme stock de fazendas e modas POR QUALQUER PREÇO.”
A demolição, contudo, não matou imediatamente a empresa. Depois de deixar a Rua do Ouvidor, o Ganha Pouco reapareceu no nº 3 da Travessa de São Francisco de Paula, nas imediações do Largo de São Francisco. Ali continuou vendendo tecidos, modas e novidades durante pelo menos 1905. A partir daí, suas pegadas vão desaparecendo da imprensa carioca.


