Manuel Vicente Alves Jacarandá, conhecido como Dr. Jacarandá, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas do Rio de Janeiro no início do século XX. Atuando como rábula — prático do Direito sem diploma de bacharel —, o alagoano construiu fama ao defender causas populares e influenciar a cultura popular, inspirando peças teatrais e o visual do personagem Zé Carioca.
Nascido em 25 de abril de 1869, em Palmeira dos Índios, Alagoas, Jacarandá chegou à capital federal em 1894 após trabalhar como moço de bordo. Iniciou a vida no Rio em ocupações humildes e trabalhos braçais, mas utilizou o estudo autodidata para ingressar no universo jurídico. Sem frequentar a Faculdade de Direito, aprendeu a legislação e os procedimentos dos fóruns, atuando nos limites permitidos como procurador e solicitador.
O rábula especializou-se em pequenas causas, prisões e pedidos de pessoas com poucos recursos. Operava em delegacias, pretórios e na Casa de Detenção, tornando-se conhecido por magistrados e funcionários da Justiça. Entre seus casos, destaca-se a obtenção de um habeas corpus em 1928 para Mercedes Maria da Silva, jovem presa por vadiagem, concedido pelo juiz Eurico Torres Cruz.
A imagem pública de Jacarandá era marcada pelo uso de fraque, gravata-borboleta, monóculo, bengala e uma pasta repleta de papéis. Essa aparência, somada à sua fala solene, transformou-o em celebridade. Em 1920, o músico Albertino Inácio Pimentel compôs o choro Doutor Jacarandá, gravado pelo Grupo dos Jacarés. No ano seguinte, o Teatro Recreio encenou a burleta Dr. Jacarandá, com atuação do ator João Martins.
A vida do rábula também foi marcada por episódios policias e conflitos públicos. Em 1915, envolveu-se em discussões durante uma greve de padeiros e, em janeiro de 1917, foi agredido com pedaços de madeira em uma confusão na Rua do Lavradio. Jacarandá reagia a tais ofensas processando os envolvidos e recorrendo às autoridades para preservar sua dignidade.
Até sua morte, em 1948, Jacarandá residia no número 73 da Rua do Lavradio, no Centro do Rio. Segundo reportagem da época do jornal A Manhã, ele foi patrono de centenas ou milhares de causas civis, criminais, comerciais e trabalhistas, sendo descrito como alguém que “sempre defendeu, jamais acusou”.

