A sarcopenia, perda progressiva de massa, força e desempenho muscular, pode agravar a qualidade de vida de pessoas com doenças neuromusculares, segundo especialistas ouvidos nesta terça-feira (29). Eles defendem que a avaliação desses pacientes vá além da quantidade de músculo e considere funcionalidade, nutrição e condicionamento.
Para Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos do Niterói D’Or, e Wladimir Bocca, médico do departamento de doenças neuromusculares da Unifesp, é preciso diferenciar a perda muscular causada pela doença neuromuscular daquela relacionada à sarcopenia, ao descondicionamento físico, à desnutrição ou ao envelhecimento. A distinção importa porque fatores diversos podem atuar ao mesmo tempo sobre a musculatura.
Em pessoa com doença neuromuscular, a redução de força ou capacidade funcional não deve ser atribuída automaticamente à progressão da doença de base. Nível de atividade física, estado nutricional, composição corporal, idade e condicionamento também contribuem para a perda de desempenho.
Entre os principais impactos está a dificuldade para caminhar, subir escadas, levantar-se de cadeira e fazer transferências. Quem já tem limitações pela doença pode precisar de mais auxílio para tarefas antes feitas de forma independente. A perda de força também aumenta a vulnerabilidade a quedas, sobretudo em pacientes com alterações de marcha ou equilíbrio.
Wladimir Bocca chama atenção para a relação entre perda de força e fadiga. Com menos reserva muscular, uma mesma atividade exige proporção maior da capacidade física, e tarefas comuns se tornam mais cansativas. O impacto alcança autonomia e participação social, dizem os especialistas.
O educador físico Guilherme Reinheimer afirma que manter o movimento dentro dos limites funcionais é estratégia importante. Exercício resistido ou assistido, quando individualizado, pode preservar força e função sem ultrapassar a capacidade do paciente. A endocrinologista Luiza Travalloni, mestre pela UFRJ, reforça a necessidade de avaliação integrada de composição corporal e metabolismo, sem análise baseada apenas no peso.
A pesquisadora Eduarda Iennaco ressalta o papel do estado nutricional. Baixa ingestão de proteínas e calorias pode acompanhar a perda muscular e alimentar ciclo de redução de funcionalidade e nova perda de músculo. A necessidade de proteína deve ser ajustada conforme doença, função renal e outras condições, sem recomendação única.
Orsini e Bocca citam meta-análise com 43 estudos que encontrou qualidade de vida menor entre pessoas com sarcopenia, com evidência moderada. Em doenças como esclerose lateral amiotrófica, atrofia muscular espinhal, miastenia gravis e distrofias, a força e o desempenho funcional têm relação mais direta com qualidade de vida do que a massa muscular. “Sarcopenia não é apenas perder músculo: é perder força, autonomia e qualidade de vida”, sintetizam.

