Plataformas digitais que simulam experiências de consumo, como compras on-line e pedidos de comida que nunca chegam, tornaram-se populares globalmente. Chamados de ‘sites de dopamina’, os projetos buscam subverter hábitos de consumo excessivo ao oferecer o prazer da expectativa sem a realização da transação financeira ou a entrega do produto.
A tendência surgiu na Coreia do Sul e se expandiu para outros países. Em Seul, a estudante de engenharia mecânica Seohyun Park, de 21 anos, desenvolveu em março um site de entrega de comida fictício. A plataforma permite que o usuário faça pedidos falsos e calcule a economia de dinheiro e calorias, registrando cerca de 10 mil visitantes mensais.
Na Índia, Purvansh Parmar e Anshul Sharma, ambos de 26 anos, criaram uma ‘cozinha de dopamina’ que oferece entregas falsas com receitas reais. O projeto já acumulou mais de 2,7 milhões de visualizações. Outras iniciativas incluem o Imaginair, do grupo ambientalista Earth Day Canada, e a Fake Haul, megaloja virtual criada por um desenvolvedor da Microsoft nos Estados Unidos.
O funcionamento baseia-se na ‘utilidade antecipatória’, conceito da economia comportamental onde a expectativa de obter algo gera satisfação. Ravi Dhar, diretor do Yale Center for Customer Insights, explicou que o ato de esperar proporciona prazer e que, em alguns casos, a antecipação é suficiente para satisfazer a necessidade.
A psiquiatra Anna Lembke, da Universidade Stanford, descreveu as plataformas como um ‘mecanismo de autocontenção’ diante da dopamina digital fornecida por dispositivos eletrônicos. Para a médica, os sites funcionam como uma resposta criativa para limitar comportamentos habituais e aumentar a autoconsciência.
Outras simulações focam em comportamentos sociais, como o Damta World, criado pela desenvolvedora Seojin Ko na Coreia do Sul. O site recria pausas para fumar com cronômetro e chat, atraindo 150 mil pessoas por mês para interações sobre dificuldades cotidianas.
Lingguo Xu, economista comportamental da Universidade de Waterloo, alertou que a eficácia pode diminuir quando a simulação deixa de ser novidade. Segundo Xu, há o risco de a experiência intensificar o desejo e levar o usuário a concretizar o consumo real para corrigir o mecanismo de antecipação.

