O STF trata de forma assimétrica os vazamentos de mensagens que abalaram a Justiça brasileira. Em 2019, ministros usaram a Vaza Jato para declarar Sergio Moro suspeito. Agora, chats entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, obtidos pela PF, enfrentam resistência para virar investigação.
Em junho de 2019, quando Daniel Vorcaro ainda estava no processo de assumir o controle do Banco Máxima, depois rebatizado Banco Master, um grande vazamento de mensagens deflagrava uma crise no sistema de Justiça brasileiro. O escândalo mostrou diálogos entre o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, obtidos de forma ilegal por um hacker.
Quase sete anos depois, outro vazamento voltou a abalar a Corte. As mensagens estavam no celular de Vorcaro, apreendido com a primeira prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025. Incluem diálogos com Moraes sobre sua estratégia de defesa. O relatório completo da PF, com as 52 mensagens, foi divulgado em 1º de setembro.
Desta vez, há uma diferença importante: não se trata de conteúdo hackeado, mas de celular apreendido e periciado pela PF. Apesar disso, Gilmar Mendes e um setor do STF não veem nas mensagens auxílio para investigar a conduta de um ministro cuja mulher tinha contrato milionário com Vorcaro.
Há um esforço articulado para adiar a análise do caso, com apoio de Flávio Dino, Cristiano Zanin e do próprio Moraes. Para eles, a contradição entre declarações de Moraes e as provas não justifica abertura de investigação. Em março, Moraes negou ter recebido mensagens; em setembro, questionou novamente a existência delas.
Além dos diálogos, a PF localizou dois contratos da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, com Vorcaro, que juntos poderiam resultar em pagamento de R$ 158 milhões. Um vídeo de Moraes e da mulher saindo de jatinho ligado a Vorcaro no Aeroporto Santos Dumont, em agosto de 2025, mostrava o uso de um dos contratos.
Na segunda-feira (28), Gilmar divulgou o texto da questão de ordem apresentada em 15 de setembro. O ministro defende que o julgamento sobre investigar Moraes seja suspenso indefinidamente, até que sejam informados todos os magistrados citados nas conversas. Na sessão, Gilmar acusou André Mendonça de ‘evidente condução política-eleitoral’.
Em 2019, Gilmar disse que a origem ilegal das mensagens ‘não necessariamente’ anularia as provas. Em 2021, a 2ª Turma declarou Moro suspeito, decisão confirmada pelo plenário. Lula deixou a prisão em novembro de 2019, após 580 dias preso, e teve as ações anuladas.


