O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, se consolidou como principal base do Terceiro Comando Puro (TCP), com novas barricadas, pontos de vigilância armada e restrições à circulação de moradores. A conclusão é de investigações da Polícia Civil, que apontam alianças com facções de outros estados e a presença do PCC na região.
Segundo a polícia, a localização estratégica do conjunto de favelas, cercado pelas linhas Vermelha e Amarela e pela Avenida Brasil, facilita a entrada e saída de criminosos, a redistribuição de cargas roubadas e o acesso a rotas de fuga. As comunidades também servem de abrigo para criminosos da Bahia e do Ceará, principalmente de grupos como Bonde do Maluco (BDM) e Guardiões do Estado (GDE).
As alianças, de acordo com as investigações, têm como objetivo fazer frente à expansão do Comando Vermelho (CV) no Nordeste. Lideranças desses grupos passaram a permanecer no Rio por considerarem as favelas mais seguras e próximas às principais lideranças do TCP, conseguindo comandar atividades criminosas à distância.
Moradores relatam que a dinâmica mudou desde a morte de Thiago da Silva Folly, o TH da Maré, morto em operação do Bope em maio de 2025. Após a morte, Michel de Souza Malveira, o Mangolê, e Bill da Maré passaram a exercer influência na região, autorizando a venda de crack e a instalação de barricadas em locais antes sem obstáculos.
Na Baixa do Sapateiro, o Largo IV Centenário ganhou barricadas, e a Rua Nova Jerusalém, que divide a comunidade com a Nova Holanda, também foi cercada. A Avenida Guilherme Maxwell, usada como alternativa para fugir de congestionamentos, passou a conviver com a presença de criminosos. Moradores também relatam roubos de veículos por homens armados com fuzis e invasões de casas por usuários de drogas.
“Os bandidos proíbem que os moradores denunciem os roubos. Estamos aguentando calados a situação. Precisamos de ajuda, porque a situação está cada dia pior”, afirmou uma moradora da Baixa do Sapateiro, que pediu para não ser identificada por medo de represálias.
Criminosos armados usam áreas próximas a escolas e unidades de saúde como pontos de observação. Na UPA CF Adib Jatene, na Avenida Bento Ribeiro Dantas, homens com fuzis colocam cadeiras diante da entrada principal e observam quem entra e sai da comunidade. A disputa territorial também cria fronteiras internas: moradores da Nova Holanda e do Parque União são proibidos de atravessar para áreas controladas pela facção rival, com restrições até no comércio.

