A capacidade computacional global dedicada à inteligência artificial cresce 3,3 vezes ao ano desde 2022, segundo a Universidade Stanford. Enquanto a ONU busca referências comuns, União Europeia, Estados Unidos e China avançam com modelos distintos de governança e transformam a definição das regras da IA em disputa por liderança econômica, tecnológica e geopolítica.
As diferenças aparecem nas estratégias dos três principais polos. A União Europeia aposta em regras vinculantes e baseadas em riscos; os Estados Unidos associam o avanço da IA à competitividade e à segurança nacional; e a China combina regulação doméstica com cooperação internacional.
— Estamos caminhando para a fragmentação, e esse é um problema sério, porque muitas das questões mais urgentes exigiriam interação profunda e alinhamento em torno de padrões globais — afirma Andrea Renda, diretor de pesquisa do Centro de Estudos de Política Europeia (CEPS) e codiretor do Fórum para Cooperação em Inteligência Artificial.
A tentativa mais abrangente de convergência passa pela ONU. Entre os 40 especialistas do novo painel científico internacional está Teresa Ludermir, professora titular de inteligência artificial da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e única brasileira do grupo. Para ela, o ritmo da tecnologia impõe um dilema às instituições: — Governos precisam decidir agora, mesmo sem ter todas as respostas. Esperar por evidências definitivas significa decidir tarde demais.
Na prática, Ludermir vê mais espaço para acordos em testes de segurança dos modelos, cibersegurança e comunicação de incidentes. As divergências aumentam quando entram em cena privacidade, vigilância, controle de conteúdo e acesso a chips e capacidade computacional. — O consenso provavelmente não virá de uma lei global única, mas da construção gradual de uma camada mínima comum de avaliação, segurança e cooperação — afirma.
Nos Estados Unidos, o impasse é exposto pelo próprio setor. Executivos de empresas de IA passaram a defender mais testes de segurança e até desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados. Trump reagiu na direção oposta: afirmou que o país já dispõe de instrumentos para responsabilizar as empresas e argumentou que frear a corrida tecnológica beneficiaria a China.
Para Luca Belli, professor e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, o cenário não pode ser dividido entre países que regulam e os que deixam a tecnologia sem regras. — O que muda é a forma de intervenção. Enquanto a Europa construiu um marco jurídico baseado nos riscos, outras potências recorrem a políticas industriais, regras de acesso à tecnologia e padrões técnicos — diz.
Na União Europeia, o AI Act estabelece níveis de exigência conforme o risco de cada aplicação. Desde agosto, novas regras de transparência exigem que usuários sejam informados quando interagem com sistemas de IA e que deepfakes sejam identificados. A China também exige identificação de conteúdos gerados ou manipulados por IA e atribui responsabilidades aos provedores. Especialistas alertam para o risco de dependência tecnológica no Sul Global. Ludermir vê espaço para o Brasil ampliar sua influência: — Temos uma comunidade científica relevante, universidades, escala econômica e demográfica e tradição de articulação multilateral — afirma.


