Até 84% das crianças entre cinco e nove anos consumiram alimentos ultraprocessados, segundo dados de 2024 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). O índice chega a 79% na faixa de dois a quatro anos e a 81% entre adolescentes, conforme informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Um estudo publicado no periódico científico Obesity indica que a dieta rica em ultraprocessados interfere nos mecanismos que regulam a fome e a saciedade. O consumo desses produtos favorece a ingestão de calorias mesmo quando não há fome, tornando sabores artificiais mais atraentes do que refeições equilibradas.
A endocrinologista pediátrica Marília Barbosa afirmou que a introdução precoce de industrializados, especialmente até os dois anos de idade, gera preferência por açúcar e gorduras. Segundo a médica, esse processo leva à seletividade alimentar, em que a criança passa a recusar alimentos saudáveis, resultando em sobrepeso e obesidade na adolescência e fase adulta.
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017–2018 revelam que esses produtos forneciam, em média, 27% das calorias diárias de adolescentes brasileiros. Em grupos com maior consumo, esse percentual chegou a 59,2%. A análise apontou que a presença de ultraprocessados aumenta a densidade calórica e a ingestão de açúcares livres, reduzindo a absorção de fibras e potássio.
A médica informou que 85% da população infantil apresenta sobrepeso ou obesidade, e que 80% desses casos persistirão na idade adulta. Barbosa citou que o sedentarismo e o excesso de telas agravam o quadro. Ela recomendou a priorização de alimentos in natura e a organização do cardápio semanal para evitar industrializados.
A Sociedade Brasileira de Pediatria contraindica alimentos açucarados e industrializados nos dois primeiros anos de vida, período de formação do paladar. A endocrinologista orientou que consultas de acompanhamento são fundamentais para monitorar o peso e a altura de crianças em gráficos específicos.


