O uso de programas de inteligência artificial (IA) e filtros de imagem tem levado mulheres a buscarem intervenções estéticas baseadas em simulações digitais. Médicos e psicanalistas alertam que a tecnologia projeta padrões de beleza irreais e eurocêntricos, desconsiderando traços característicos e a diversidade genética da pele brasileira.
Pacientes têm levado ao consultório imagens de “antes e depois” geradas por ferramentas como o ChatGPT. Segundo a cirurgiã plástica Sabrina Mêne, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, as mulheres agora utilizam comandos para simular resultados de lipoaspiração e preenchimento labial em suas próprias fotos, substituindo a antiga prática de levar fotos de modelos.
A médica afirma que esses recursos mudam o semblante da pessoa e apagam traços únicos, criando uma perfeição inexistente que torna as pessoas idênticas. A dermatologista Fabiana Seidl observa que mulheres entre 35 e 50 anos buscam agora um visual sem poros, manchas ou vasos, o que ignora a realidade de um país tropical e miscigenado, onde a pele tem tendência natural a manchar.
A psicanalista e especialista em ciberpsicologia Angélica Mari explica que os modelos generativos de IA carregam vieses dominantes e eurocêntricos. Para a especialista, a tecnologia privilegia indivíduos de pele clara, cabelo liso e nariz fino, o que estreita o imaginário coletivo sobre o que é considerado bonito e amplia a insegurança feminina para otimizar o engajamento digital.
Casos reais ilustram a tendência. Uma engenheira civil de 41 anos relatou ter questionado a necessidade de operar o nariz após usar filtros que afinavam a região, embora tenha desistido do procedimento após conversas com a médica. Já uma administradora de empresas, também de 41 anos, realizou uma blefaroplastia por questões genéticas, mas decidiu se afastar das redes sociais para evitar as armadilhas da busca pela “melhor versão”.
A psicanalista Angélica Mari argumenta que a tecnologia apenas amplifica problemas sociais pré-existentes, como o machismo e o consumismo. Ela defende a necessidade de educação midiática para proteger meninas e mulheres, promovendo uma vivência mais consciente no ambiente digital.


