A Bundeswehr, Forças Armadas da Alemanha, realizou em Hamburgo o maior exercício militar de sua história, o Red Storm Charlie, simulando um ataque russo ao território da Otan. A operação integra o Plano Operacional Alemanha, documento sigiloso que prevê o país como centro logístico para o deslocamento de centenas de milhares de soldados da aliança militar.
O exercício paralisou partes de Hamburgo por três dias, com cerca de 1.700 participantes, entre eles 500 militares. O cenário simulou o desembarque de tropas da Otan no porto da cidade, o maior da Alemanha, e o avanço em direção ao leste, com atos de sabotagem e manifestações dificultando o trajeto.
O Plano Operacional Alemanha, com mais de mil páginas, é “extremamente detalhado e rigorosamente sigiloso”, segundo a especialista em segurança Aylin Matlé, do Conselho Alemão de Política Externa (DGAP). O documento determina onde os aliados teriam de desembarcar e quais rotas usariam pelo país.
O oficial da Bundeswehr Marcel Bohnert, que participou da elaboração da primeira versão do plano, afirmou que, em seis meses, cerca de 800 mil soldados e 200 mil veículos precisariam atravessar a Alemanha. “Precisamos garantir que os soldados possam utilizar nossas estradas e portos com segurança”, disse, em entrevista à DW, falando como indivíduo.
A ordem para elaborar o plano partiu do inspetor-geral da Bundeswehr, Carsten Breuer, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. A Alemanha enfrenta provocações atribuídas a Moscou, de ataques cibernéticos a sabotagens, incluindo uma tentativa de atentado com drone no Aeroporto de Leipzig-Halle em agosto.
O ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, declarou ao Bundestag em 23 de setembro que “a ameaça está se tornando mais concreta” e que “Moscou está testando nossa reação”. O governo alemão responsabilizou a Rússia pelo incidente em Leipzig-Halle.
Matlé apontou a infraestrutura deteriorada como ponto fraco: muitas pontes e estradas são da época da Guerra Fria e não suportariam cargas pesadas. O equilíbrio entre sigilo e envolvimento da sociedade também é desafio, segundo Bohnert, que defende que “partes do plano precisam ser acessíveis ao público”.
O debate sobre o sigilo voltou após a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de ultradireita favorável à Rússia, tornar-se a força mais votada na Saxônia-Anhalt. O Ministério da Defesa afirmou que nenhum estado recebe o documento completo e que as partes sensíveis são compartilhadas de forma parcial e direcionada.

