Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicada na revista PNAS, encontrou um microrganismo que interpreta de duas maneiras diferentes um mesmo sinal genético, que normalmente indica a finalização da fabricação de uma proteína. A arqueia produtora de metano Methanosarcina acetivorans pode interromper ou continuar o processo ao ler o códon UAG.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, demonstra que a arqueia Methanosarcina acetivorans pode interromper ou continuar a produção de proteínas ao encontrar o códon UAG, que normalmente sinaliza o fim do processo.
Dentro do mundo da genética, proteínas são produzidas a partir de sinais formados por três letras, chamadas códons, vindas do RNA mensageiro. As regras para o funcionamento desse sistema são compartilhadas entre todos os organismos, funcionando como uma receita de bolo: cada letra indicaria o que fazer e os ingredientes.
No caso da arqueia, o códon UAG, que sinaliza o fim da produção, pode ser lido como duas instruções diferentes. Em vez de sempre interromper a fabricação da proteína ao encontrar o códon, a arqueia também decide continuar e fazer uma proteína mais longa.
Dipti Nayak, professora assistente de biologia molecular e celular da Universidade da Califórnia em Berkeley e autora sênior do artigo, explicou que o objetivo inicial da pesquisa era outro. Como as arqueias podem fazer 21 aminoácidos, ao invés dos 20 usuais, a pesquisa buscava entender como isso afetava o organismo. O 21º é chamado pirrolisina. Foi assim que descobriu que o UAG estava sendo interpretado de forma ambígua.
O estudo indica que a quantidade de pirrolisina pode ser o que determina por qual caminho seguir, mas os pesquisadores ainda não conseguiram esclarecer o mecanismo que regula a interpretação.
Conforme a Universidade da Califórnia, as descobertas podem significar novas portas para futuras terapias contra doenças. Alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que introduzir certo grau de imprecisão na tradução celular poderia ajudar a tratar doenças causadas por um códon de parada prematuro em genes importantes, o que leva à produção de proteínas não funcionais. Isso inclui cerca de 10% de todas as doenças genéticas, entre elas a fibrose cística e a distrofia muscular de Duchenne.
Contudo, essas aplicações ainda são hipóteses, e o estudo não desenvolveu nem testou qualquer tratamento para essas doenças.

