Após o veto do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às apostas online, as bets começaram a demitir funcionários. Ao menos 36 das 188 marcas que eram autorizadas fizeram rodadas de demissão até segunda-feira (5), segundo levantamento da Amig (Associação de Mulheres da Indústria do Gaming). As dispensas se concentram em companhias de pequeno e médio porte.
A H2Bet, site de apostas com origem nos clubes de pôquer, dispensou 170 de seus 270 funcionários, segundo publicação no Instagram de seu diretor de operações, Diego Breda de Carvalho. “Hoje é seguramente o pior dia da minha vida de empreendedor, há 28 anos empreendendo nessa selva chamada Brasil”, escreveu o executivo. “Mais de 170 pessoas foram comunicadas que perderam seus trabalho simplesmente porque Lula decidiu que o trabalho delas não existiria mais”, disse.
A empresa foi procurada por meio de sua assessoria de imprensa, mas não retornou. Pessoas a par do assunto dizem que a H2Bet manterá sua atividade no clube de pôquer H2 Club e no patrocínio a competições de carteado, como o BSOP (Campeonato Brasileiro de Pôquer).
Estudo da consultoria LCA encomendado pelas bets mostra que o setor de apostas online emprega diretamente cerca de 10 mil pessoas no país e gera outros cerca de 5.000 de forma indireta. Embora as associações do setor esperem a reversão do veto na Justiça, executivos ouvidos sob condição de anonimato dizem que uma parte das bets sem reservas em caixa deve encerrar as operações de forma permanente.
Os menores negócios já viviam um cenário de aperto, com algumas empresas flertando com a falência, devido à queda no número de jogadores ativos nos primeiros meses de 2026 e à concentração da clientela nos maiores sites. A dificuldade de planejar os negócios nos próximos meses devido à insegurança jurídica é vista como um “golpe fatal”, de acordo com um executivo ouvido sob reserva.
O site de apostas Rivalo, por exemplo, dispensou quase toda a sua equipe de cerca de 100 pessoas, de acordo com ex-funcionários. Os pedidos de aviso prévio começaram na última semana. Segundo o diretor da Rivalo para o Brasil, Daniel Eskinazi, as demissões ocorreram pela medida provisória n.º 1.394 de 2026, que interrompeu as operações da empresa. “A empresa mantém colaboradores para uma possível retomada das operações, caso o mercado retorne à regulamentação”, disse em nota.
Também de acordo com ex-funcionários, o site Rei do Pitaco afastou mais da metade de sua equipe de 100 pessoas: 40 foram demitidas e 30 receberam férias coletivas. Um executivo da bet confirmou o relato, mas não quis comentar. A Alob Sports, empresa que trabalha com promoção de eventos, divulgação com influenciadores e live marketing, teve de desligar diversos funcionários diante da suspensão das bets. A empresa era uma das fornecedoras da Betano. “É um efeito em cascata. As empresas de cenografia, de segurança, de promotores de eventos e de brindes que a gente contratava também foram impactadas”, diz Bernardo Pontes, sócio-fundador do negócio, sem detalhar o número de demissões.
A startup portuguesa Hoopers, no país desde 2023, também foi afetada pela insegurança jurídica. André Costa, fundador da empresa de promoção de eventos esportivos, disse em publicação no LinkedIn que nunca havia vivido uma semana tão conturbada quanto a que decretou a suspensão das bets. Ele teve dois contratos suspensos, além de outros dois ou três paralisados e reuniões canceladas. Entre as grandes empresas do setor, a Ana Gaming, dona de Bet 7K e Cassino, já fez dispensas, embora não detalhe quantidades. “Encerrar operações por determinação legal compromete as condições que sustentam postos de trabalho e contratos”, disse a companhia em nota.


