Trabalhadoras da Cooperativa Recicle a Vida, em Ceilândia (DF), a maior região administrativa do Distrito Federal, conciliam a rotina na triagem de materiais recicláveis com cursos superiores. Maria de Sousa Santos, de 42 anos, é a primeira da família a ingressar na faculdade e acorda às 4h30 para estudar após o expediente, que começa às 8h.
Maria trabalha na separação de materiais na cooperativa desde 2021, após cinco anos de desemprego, quando atuava como diarista. Ela demora cerca de uma hora e meia para chegar ao serviço, em uma caminhada de 30 minutos até o ponto de ônibus, às 5h30, em Cocalzinho de Goiás (GO).
Na faculdade, ela cursa Tecnologia em Gestão de Cooperativas, na Universidade Católica de Brasília, proporcionado por parcerias da cooperativa com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Distrito Federal (Sescoop/DF), o Senac-DF e o Sesc-DF. As aulas terminam às 22h, e ela chega em casa depois da meia-noite.
“O que me estimula todos os dias é saber que eu tenho um lugar pra vir trabalhar. Eu quero também ser um exemplo para meus filhos e também para meus amigos que confiam em mim”, disse Maria, mãe de três filhos e avó de três netos.
A presidente da cooperativa, Claudia Maria Alves, de 57 anos, afirmou que o sentimento de empoderamento coletivo une as histórias dos 75 integrantes da entidade, a maior parte formada por mulheres. “É muito trabalho, mas fazemos questão de nos educar sobre a importância ambiental do que realizamos”, declarou.
Os rendimentos variam conforme o volume de trabalho, com todos ganhando mais de R$ 2 mil, e alguns superando R$ 4 mil. A cooperativa oferece três refeições, plano de saúde, auxílio para transporte e cursos profissionalizantes, como cabeleireiro, corte e costura, informática e educação de jovens e adultos (EJA).
No caso dos plásticos, o processamento por extrusão aumenta o valor do quilo em R$ 1,70. “Fazendo assim, conseguimos agregar valor”, acrescentou Claudia. Os materiais chegam à cooperativa por caminhões do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), do Distrito Federal.
Carlete de Souza, de 43 anos, moradora do Sol Nascente, a segunda maior favela do Brasil, também está no segundo semestre da faculdade. “Em algum momento da minha vida passou pela minha cabeça fazer um curso superior, mas isso parecia estar bem distante da minha realidade. E não estava. Foi possível sim”, contou.

