Os setores de comércio e serviços, que respondem por dois terços da economia brasileira, querem do próximo governo redução da taxa de juros, ajuste fiscal e segurança jurídica. As demandas foram listadas por representantes do setor após a desaceleração da atividade e o aperto nas margens financeiras das empresas.
O comércio, que cresceu 4,7% em 2024, desacelerou para 1,6% nos sete primeiros meses de 2026. Já o setor de serviços passou de uma expansão de 3,1% para 1,9% no mesmo período. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a expansão média do setor tem ficado abaixo de 2% ao ano.
O resultado reflete o impacto da alta taxa de juros no caixa das empresas. Entre as 40 maiores empresas de bens de consumo e varejo, as despesas financeiras consumiram 45% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) em 2025, ante 20% em 2023 e 33,3% em 2024, segundo a FecomercioSP. No segundo trimestre deste ano, houve alta de 58% nos pedidos de recuperação judicial ante o mesmo período de 2023. Das mais de 6 mil empresas em recuperação, 21% eram do comércio. O setor de serviços responde por 55,4% dos 8,8 milhões de CNPJs negativados no país, seguido pelo comércio, com 32,6%.
Para Antonio Lanzana, presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP, a redução da taxa de juros está no centro das demandas porque eleva o custo do capital e contrai as margens, reduzindo os investimentos. Ele defende um ajuste fiscal para reverter a desaceleração, com projeção de crescimento de 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. A relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) passou de 71,7% em dezembro de 2022 e deve encerrar este ano perto de 84%.
O debate sobre a escala de trabalho 6×1 atinge diretamente o setor. Segundo a CNC, a medida pode gerar impactos para pequenas e médias empresas, com possíveis reflexos na alta de preços ao consumidor. A entidade defende que as mudanças sejam feitas com segurança jurídica e diálogo institucional.
A CNC destaca ainda a necessidade de garantir a neutralidade da carga na Reforma Tributária e reivindica uma política de socorro ao caixa das empresas. “O desafio é garantir que a transição não aumente a carga sobre as empresas, principalmente do setor de serviços, em um momento em que milhões de negócios ainda enfrentam dificuldades financeiras”, diz a entidade, em nota.
Lanzana avalia que a questão fiscal tem sido tratada de forma superficial pelos candidatos à Presidência, uma vez que a correção da trajetória envolve medidas impopulares. “O presidente eleito não terá alternativa senão efetuar o ajuste, até porque não conseguirá governar se não o fizer”, afirma. A CNC afirma que a agenda foi levada aos candidatos e será entregue à equipe de transição do governo eleito, com respaldo de mais de mil sindicatos e 34 federações.

